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  • Foto do escritorArthur Gadelha

O homem gay que conversa com fantasmas na melancolia de ‘Todos Nós Desconhecidos’

★★★★☆ Estreando diretamente no streaming, novo filme de Andrew Haigh atualiza seus fantasmas



Quando a fábula começa a invadir o que se esperava ser o mundo real, me peguei pensando que esse seria exatamente um filme que Charlie Kaufman faria se fosse gay - um mergulho no delírio para entender essas tantas coisas que faltam do lado de fora. "Eu sou solitário, mas não porque sou gay", responde Adam à sua mãe que está ali na sua frente mesmo que tenha morrido há mais de 30 anos. Na solidão interminável dos seus dias, o personagem - vivido com uma angústia imensa por Andrew Scott - encontra duas rotas de fuga: o vizinho carinhoso que de repente precisa da sua presença e a fantasia de que seus pais ainda estão vivos numa casa do interior. Para ele, são três personagens desconhecidos. Até ele mesmo, será que se conhece?


Acho essa equação muito atraente porque, em certa medida, o filme usa o elemento sobrenatural de forma genérica, sem que aparentemente contribua tanto com a penca de filmes que usam o delírio para fazer seus protagonistas se confrontarem. Mas também em grande parte, a trama usa essa dimensão para soar o mais sincero possível, e sem fazer tanto barulho. Quando li que a origem dessa história é japonesa, herdando olhar oriental para os mundos indistinguiveis dos mortos e dos vivos, tudo fez ainda mais sentido.

 

Olhando para o cinema de Andrew Haigh, agora parece ter sido inevitável que um dia os fantasmas apareceriam. Porque seus filmes suspendem o tempo para escutar por trás do que está tão quieto. São filmes sobre estranhos, sozinhos, que vão se atravessando e espalhando seus pedaços por aí. Aqui ele coloca Adam para conversar com seus pais de forma diretamente consciente para que possam dizer aquilo que jamais diriam vivos, para que Adam possa finalmente ouvir aquilo que pensava ter esquecido. "Tá tudo bem, já faz tanto tempo...", tenta se confortar, enquanto chora. É um filme de saudade com terror. A cena em que Harry enxerga os espíritos, esfumaçados sob o vidro escuro da sala, resume bem. Os fantasmas, afinal, assombram.


O roteiro de Haigh entende bem essa distenção entre o amor e o medo, fazendo com que a melancolia preencha todas as lacunas desse vai-e-vem entre o mundo e sua ilusão. Na mesma sintonia, os cenários enclausurados, a escuridão permanente mesmo em cenas diurnas, além do soco da trilha - Death of a Party, por exemplo, ganha outra força: "Another night... and I thought well well". As presenças oscilantes de Paul Mescal, Jamie Bell e Claire Foy formam uma tríade tão aconchegante que é difícil não ser tomado pelos abismos que os separam do protagonista.


Existem muitas experiências sobre essa ideia de "ser gay" e absorver esse impacto em diferentes gerações que mudam e "melhoram", mas essa quase específica de estar numa família que não necessariamente te oprime, mas que só não te enxerga, aqui é uma ferida aberta, direta, que sangra. Quem viveu grande parte disso percebe muito bem porque se tornou um lugar comum dentro da própria narrativa de se contar essa mesma história, de novo e de novo, nos livros e no cinema. 


Entendo a insatisfação com o final, mas sinto que essa angústia precisava estar ali. Não é "sentença" pela sentença, como vemos à rodo em filmes queer - para usar o termo contemporâneo do Harry -, mas uma forma de enquadrar sua atemporalidade e manter a contradição do que lhe é sublime, contando que esses fantasmas não só assustam os outros, mas também a si mesmos.

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