• Arthur Gadelha

Titane: crônica mecânica de violência e amor

CRÍTICA Com uma aventura irreverente em forma e mensagem, Júlia Ducournau solda seu nome nas carinhosas transgressões do cinema europeu

Apesar de banhada em violência, essa história de uma mulher encarrilhada pela inesperada fuga de conforto é inevitavelmente carinhosa. Essa equação abertamente contraditória resulta numa narrativa desafiadora até mesmo ao espectador mais sintonizado com as sujeiras dos trashs e as anomalias dos filmes de monstros. Para dar fisicalidade emocional a uma premissa tão expansiva, as gravidades e urgências são destrinchadas com muito cuidado pelas mãos de Julia Ducournau, a primeira mulher a vencer sozinha a Palma de Ouro no Festival de Cannes.


Quando perguntado sobre os motivos que levaram Titane a ser esse marco (atrasado, diga-se, diante de 74 edições), o presidente do júri Spike Lee respondeu que nunca havia visto “um filme em que um Cadillac engravida uma mulher”. Apesar de eu também nunca ter assistido algo parecido (salvas as lembranças óbvias de Cronenberg e demais aventuras automobilísticas), era impossível não depositar certa confiança e curiosidade por Júlia, que em 2016 chacoalhou o cinema de horror com Grave (Raw), história de uma garota canibal que também pôde ser lida como uma jornada biológica de descoberta sexual. Assim como seu antecessor, esta aventura é tal qual a leitura de um mundo cujas regras e convenções são tão reais e humanas quanto absurdas e alienígenas.


Quando Titane liga sua projeção, estamos literalmente dentro de um motor, banhado num azul quase lunar enquanto jorra graxa e se mantém em movimento. Acima dele, descobrimos que há uma conexão imediata com Alexia que está sentada no banco de trás fazendo suas cordas vocais vibrarem na mesma intensidade com o que as engrenagens passam de marcha. Muito antes de conhecermos a complexidade dessa personagem, e isso se provaria um delicioso mistério, Júlia nos apresenta as sensações que preveem a solidão daquela garota. Após o acidente, com a inserção de uma placa de titânio no cérebro para continuar viva, Alexia parece cada vez mais distante do próprio controle.


A revolta da personagem é construída de forma repentina, como um organismo em fúria que rejeita inconsequentemente um órgão transplantado, resultado de uma fusão tão elétrica entre máquina e natureza que não cabe nos espaços físicos e emocionais cedidos. Quando finalmente destrava o bloqueio “humano” e passa a sentir um desejo brutal (como Justine em Raw), Alexia começa a devorar seu próprio mundo. Nesse curso, a performance de Agathe Rousselle impressiona sob as camadas mutantes de uma figura que se ergue da violência para a ternura num estalar de dedos sem que esse movimento soe “mecânico”, mantendo vivos os sentimentos que nos assustam.


Quando assume a fuga sem destino, o roteiro engata numa cidade vigilante que não poderia ser mais ameaçadora para uma mulher-máquina, cujos atos cruéis foram impossíveis de impedir, como o vampiro atraído pelo sangue nas várias fantasias que vangloriaram o horror do impulso. Nesse trecho, Titane vai soando cada vez mais confiante, principalmente por ter uma protagonista tão estranha na competência de existir para além dos propósitos.


Vincent Lindon

Já quando o filme pousa e se transforma numa história sobre a afirmação do carinho em sua forma habitual, Titane se contenta com a irreverência anunciada em sua trajetória de conciliação. Como plano súbito de sobrevivência, Alexia tem seus traços deturpados para pegar o lugar de uma criança que desapareceu há décadas, inserindo na narrativa labiríntica o sisudo Vincent Lindon como um pai repleto de remorso e angústia por um passado aparentemente muito mal resolvido. De repente, parece que um tem o que o outro precisa, dando origem a um faz-de-contas circular sobre as mesmas tensões.


Para dar o tom de uma investigação crítica da masculinidade, a história projeta na paternidade todos os conflitos de solidão e proteção, conceitos que estão muito fora dali, mas ao mesmo tempo adormecidos sob toda ira de Alexia e esperança melancólica de Vincent. Apesar da insistência no mistério já revelado apontar para um desgaste na disposição dos elementos narrativos, gráficos e até dramatúrgicos (o que o faz ecoar na repetição), a obra brinca tanto com as expectativas e limites de seu espectador, que a experiência é desconcertante até o fim.


Certa das camadas dessincronizadas de afeto e crueldade, Julia está ainda mais à vontade com a construção da violência e de seus significados flexíveis no circuito de Alexia. Da primeira cena em que reage a um assédio até a naturalização fria do assassinato em série e de sua própria automutilação, a emoção vai se descontrolando para que seu caminho reverso seja justificado e para tornar ainda mais intensa a obrigatória relação com o pai.


Retomando o primeiro pensamento, o que realmente há de mais surpreendente aqui é que, apesar de todas essas discussões violentas sobre corpo, família, gênero, sexo e cidade, esse é um filme francamente amoroso, fascinado pela esperança de que um pedido de socorro seja ouvido de longe. Refirmando-se uma cineasta dedicada a decodificação de um cinema que está passos à frente, Julia Ducournau faz de Titane seu prisma de reflexão mais pulsante, e diria que até mesmo modesto, presumindo que sua arte signifique novas formas de vida para encarar o caos - e para isso não é preciso ser perfeito.

★★★

Direção: Julia Ducournau

Roteiro: Julia Ducournau

Música: Jim Williams

Fotografia: Ruben Impens

Montagem: Jean-Christophe Bouzy

Ano de Lançamento: 2021

País de Origem: França