• Arthur Gadelha

The Leftovers: a culpa dos que ficaram no Brasil

ENSAIO É possível esquecer e viver como se nada tivesse acontecendo? Não.

"I think I'll just let the mystery be...", canta Iris DeMent na abertura solar da segunda temporada de The Leftovers, série da HBO baseada no livro Os Deixados Para Trás, de Tom Perrotta, que também é roteirista da adaptação. Na trama, 2% da população mundial desaparece de um momento para o outro sem qualquer explicação e "os que restaram" precisam lidar com o luto e com a falta de resposta. Custa para compreendermos qual o objetivo dos chamados "Guilty Remnant", grupo de pessoas caladas e vestidas de branco que recrutou muitos dos que perderam alguém para o acaso. Mas o que eles estão tramando? Onde querem chegar? A resposta é tão misteriosa quanto simples e objetiva: nunca esquecer o que aconteceu, e nunca permitir que o esqueçam. As pessoas desapareceram. Como continuar vivendo normalmente com essa informação?


Veiculada entre 2014 e 2017, The Leftovers provavelmente não foi escrita como metáfora para qualquer narrativa distópica do mundo real, principalmente por se provar uma trama cada vez mais individualista quanto às emoções de seus personagens. Mas assistindo em 2021, em meio a uma pandemia descontrolada no Brasil, o paralelo é imediato e ainda mais angustiante diante da razão pela qual nossos entes foram obrigados a deixar esse mundo. No Brasil, além de todas as implicações do próprio vírus de ação imprevisível, ainda vivemos a negligência criminosa de um governo federal que nunca se importou propriamente com as vidas.


"Quer que eu faça o quê?", pergunta o presidente do Brasil irritado ao reforçar a própria conspiração de que a busca por vacina e isolamento social foram decisões tomadas politicamente para derrubá-lo. As pessoas que morreram por Covid-19 no Brasil não importam para esse poder, fazendo com que hoje, 23 de julho de 2021, se registrem 547.016 mortes. Como esquecer? Como continuar vivendo normalmente com essa informação? A resposta é tão óbvia tal qual os remanescentes culpados: não tem como. É preciso se lembrar para sempre, tanto pela memória de todos que partiram precocemente, quanto para que o julgamento criminal em torno dos responsáveis não caia "em águas passadas". Uma ferida sem cicatriz.


Na ficção, como não há quem culpar, os culpados se tornam os que ficaram, os "Guilty Remnant", que se calam como forma de rejeitar suas existências "permanecentes" e negar o discurso de que foram privilegiados por não terem sido eles a partir. Não há milagre, há só tragédia. Do lado de cá, o cenário é pior, pois além da culpa institucional estar clara diante de todo o mundo, os que ainda estão aqui são também os responsáveis imediatos - elegeram bolsonaro mesmo conhecendo todos os seus atos criminosos. Como supor que alguém defensor literalmente oficial das milícias e da tortura poderia se importar com vidas humanas?


Ficamos sem chão. Parte imensa dos que restaram, além de não se sentirem culpados, continuam na defesa dessa política genocida, buscando meios dos mais pífios para isentar suas posições políticas de tudo o que está acontecendo, como se os que morreram tivessem mesmo que morrer. Eu não votei em bolsonaro, mas nós o elegemos. É a crueldade de sermos brasileiros. A crueldade de, todos nós, termos de assumir a culpa por um país que morre cada vez mais. Nunca esqueceremos, não permitiremos que esqueçam, e a história não deixará que esse crime simplesmente desapareça.