• Arthur Gadelha

Roosevelt e os estranhos amantes da noite em Polydans

Cantor e compositor alemão Roosevelt recria sua origem em "Polydans", álbum lançado na última semana de fevereiro nas plataformas digitais

Em 2017, foi o Spotify que me apresentou Roosevelt. Ativado no modo aleatório após uma música do Tame Impala que eu tinha selecionado para ouvir, o streaming sugeriu a canção Colours, lançada em 2016 no seu primeiro disco cujo título carrega seu próprio nome pelo intuito introdutório. Ali não fazia ideia de quem fosse esse cantor, mas Colours invadiu meu botão repeat e, em seguida, me apresentou a beleza fantasmagórica do álbum em que se encaixava tão bem. Por dias, e depois semanas, fiquei hipnotizado por aquele som. Minha viagem sensorial era de estar chegando em uma cidade completamente nova, sem amigos, sem amor e família, apenas eu e a noite - aquele sentimento de solidão que, contraditoriamente, é acompanhado de uma euforia pulsante. Ao ouvir seu novo disco, Polydans, meu sentimento é de que essas sensações continuaram numa sequência ainda mais charmosa.


Embora não exista nada de esplêndido nas letras de Roosevelt, seu delicioso trabalho com sintetizadores resgatados da vibe electropop dos anos 1980/90 legitimam a simplicidade do seu relato ao fazê-lo parecer sublime quando, sem essa força, seria apenas uma declaração ou dívida de amor. A transição da instrumental Montjuic para a silenciosa Forget é um desses momentos de elevação dos sentimentos elétricos, quase como o chacoalho que Lady Gaga oferece ao sair de Chromatica II para 911 em seu último disco Chromatica. Aqui, Roosevelt sabe alcançar seu público com um disco 100% dançante até mesmo quando investe num tom melodramático, como é um curioso caso de Close To My Heart.


Na sua estreia em 2016, o elemento da noite é evocado nas canções elétricas com um espaço cujo movimento é tão longo e misterioso que o afasta da "realidade", como um estado de suspensão da própria vida para flamar os deliciosos sentimentos de uma solidão assistida. Nessa jornada de 2021, a imersão é semelhante porque a noite aqui é uma profunda areia movediça - veja só, os amantes "estranhos dentro da noite" da segunda faixa se transformam em apenas "amantes da noite" algumas faixas depois, num som tão doce que soa como um sonho infantil já sem qualquer mistério ou receio. Quando chega em Sign, a despedida da jornada, porém, a sensação é mais como se o álbum estivesse começando de novo, os amantes já estão perdidos novamente em busca de sinais de que eles realmente existem juntos. É como se amanhecesse e o dia apagasse toda a euforia daquela noite longa.