• Arthur Gadelha

Recifest: fugir da terra, respirar depois

Parte da programação diversa de curtas-metragens do evento recifense não respira mais do lado de cá

Luciana Souza em "Inabitável" (PE)

Muito antes do homem ir à lua, já corria pelas veias da fantasia uma sensação poeticamente pessimista de que o nosso futuro não era na Terra, esse lugar tão caótico, injusto e cruel. Em algum momento dessa exploração partiríamos para outro planeta ou realidade, havia de acontecer alguma ruptura brutal na forma como as coisas caminhavam do lado de cá. Olha que quando Georges Méliès foi à lua, há quase 120 anos, essa nossa humanidade nem tinha passado ainda pelas duas guerras do século XX, e mesmo assim, o pouso em outro astro era motivo de euforia. O mundo, da gente e do cinema, foi mudando muito, mas essa sensação de despertencimento foi ficando diante da contemplação: se na jornada de Stanley Kubrick (1968) havia tons épicos pelo limite físico ultrapassado, na de Tarkovski (1972) a surpresa virava aflição espiritual. O que importa nessa frágil trajetória traçada é que a vontade de fugir ainda tá com a gente.


Na programação do Recifest - Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, alguns curtas-metragens saltam esse ímpeto em diferentes perspectivas, texturas e emoções. Somado ao contexto em que vivemos hoje, com quase 4.000 mortes diárias pela covid-19, tudo fica ainda mais emergente dentro da tela também. É o mesmo mundo largado ao caos de Abjetas 288 (SE), de Júlia da Costa e Renata Mourão, totalmente entregue à falta de comunicação e respeito pela existência.


Em Os Últimos Românticos do Mundo (PE), de Henrique Arruda, ainda há uma esperança, uma vontade de ser feliz, um amor que, veja só, também não é da Terra. Ao fugir às pressas de uma cidade em ruínas, um casal perambula num limbo existencial enquanto espera o mundo acabar, ambos na expectativa de que exista um próximo onde o amor possa ser celebrado em sua integridade. Mas o mundo nunca acaba, e eles ficam ali esperando. Envelhecem nessa espera. Envelhecem, apesar disso, felizes, do lado de lá. Essa mensagem, mergulhada num contexto até estético, funciona de forma bastante elétrica na perspectiva do universo excessivamente cômico para exaltar a fantasia da felicidade e o lugar em que ela consegue existir. A edição pega emprestada a narrativa épica de uma transmissão de TV para imprimir certa ironia nessa imagem futurista de aparência irreal, construída, e talvez por isso tão esperançosa quanto a cena emblemática de outro filme: uma mãe que é convidada a "desaparecer" com a filha. A fuga final em Inabitável (PE), de Enock Carvalho e Matheus Farias, nasceu clássica dentro da filmografia brasileira dos "filmes de gênero" atados à discussões sociais. Quando propõe o fim do mundo com um olhar exclusivamente radiante, o corpo dramático dessa história cresce tanto do lado de cá porque consegue acalmar os nervos ao mesmo tempo em que te lembra que todos nós não estamos partindo. Nós ficamos aqui. Uma mistura de sentimentos arrepiantes na contradição que se repete no limbo existencial de Preces Precipitadas de um Lugar Sagrado Que Não Existe Mais (CE), de Rafael Luan e Mike Dutra, onde uma realidade não-racista só cabe ao futuro: "Lá somos nós que contamos a história".


Talvez seja o mesmo pressentimento inflexível que guia, em outra dimensão, o translado hipnótico que há em Nebulosa (CE), de Bárbara Cabeça e Noá Bonoba. A trama de uma mulher que se vê obrigada a conviver com um fantasma numa casa eternamente noturna é a composição assertiva sobre as sensações sufocantes do isolamento social decretado para lutar contra uma pandemia que há tanto tempo vem se tornando cada vez mais monstruosa. É por isso que o passeio da mulher-fantasma, de um cômodo para outro enquanto é observada apreensivamente, é tão sorrateiro e quieto, tão assustador quanto intimidante, como todo esse medo que estamos testemunhando. Mesmo assistida, mesmo acompanhada, ela está só. Diante dessa solidão, não tem lado de fora e a fuga só pode ser para dentro. Mas o que importa é que esse lugar "Xx23- amb.rec 12 mil 207+symb" não é aqui, tal qual todos os outros encontrados nos filmes acima, mas um lugar tão longe que acessá-lo de forma física é uma tarefa impossível - então vão apenas os olhos, o cinema, o sonho, e a gente felizmente vai junto dessa vez.


Noá Bonoba em cena de "Nebulosa" (CE)

@2021 - Ensaio Crítico | Propriedade de Arthur Gadelha | Cinema Brasileiro | Crítica de Cinema 

Contato: