• Arthur Gadelha

Festival de Pelotas: ‘Passou’ e a aflição de estar vivo

ensaio Diante da vasta filmografia brasileira com "histórias de apartamento", obra de Felipe André Silva filma uma solidão particular

Talvez as cartelas narrativas, os saltos no calendário e os longos planos calados possam assustar, mas a temporalidade afetiva dessa história de antigos amores é a sua característica mais inquietante, uma mensagem até carinhosa sobre "as coisas importantes que estão passando". Em imagem, essas coisas são mínimas: um chamego no sofá, as memórias de uma praia, um cigarro tragado no parapeito. Em texto, essas coisas são tão imensas quanto banais: a revelação de um segredo bobo, uma declaração de amor, um respeito por tudo o que o tempo converteu.

Em 70 minutos, três homens falam sobre seus anseios, preocupações, saudades e desejos, enquanto do outro lado parece que não há ninguém. E mesmo que essa configuração cênica vá se assemelhando cada vez mais com uma performance teatral, as interpretações de Pedro, Fábio e Carlos nunca são projetadas dessa forma tão meticulosamente articulada. Suas falas e emoções parecem ter nascido ali mesmo naquele presente; os sorrisos, curtos movimentos e surpresas, está tudo tão naturalmente incorporado que a costura se torna contraditoriamente tão real quanto fantasiosa. Afinal, ao falarem para si, o objetivo não é nem encontrar uma conversa ou afago, mas apenas "ser escutado". Ao redor, as "luzes pop" que constituem o cenário colaboram para essa sensação de devaneio, de um longo sonho acordado, um relato que permanecerá escondido apesar de exposto dessa forma.


Então a solidão imensa desses monólogos quietos diante de uma cidade que nunca amanhece, aos poucos, vai fazendo uma esperança tola coexistir com a melancolia de se observar a madrugada de forma passiva. Passou é assim como Pedro, que não é "dessas pessoas que acredita em destino", mas que carrega o tempo como um objeto precioso e igualmente sufocante. Quando Felipe André Silva assume até em palavras sobre tela que as coisas acabam, apesar de intensas, esse filme me deixou como se estivesse ouvindo o desfecho de O Tempo, canção desesperadora do Cidadão Instigado. Em ambas as histórias, a vontade de ter o tempo nas mãos é um poder que, efetivamente, não significa nada. Tudo passa.


Eu nunca pensei que fosse tão difícil Eu me entender com tudo isso Ainda mais sem você por perto Passa o tempo e eu começo a perceber o quanto fui violento com o nosso amor

Hoje eu penso diferente


Sofro Por não ter pensado em te dar um desconto Pus o rancor pra cuidar de tudo E vi que a vida mudou num segundo Às vezes choro Pois sei que não posso deixar que o passado Invada meu mundo Lembrei do perdão E vi nós dois Construindo um futuro


Mas o tempo É um amigo precioso Que faz questão de jogar fora Aquela mágoa vencida que ficou


Filme assistido no 1º Levante – Festival de Curtas-Metragens de Pelotas