• Arthur Gadelha

Cine Ceará: "Ópera Sem Ingresso" e a sinfonia da demolição

CRÍTICA Musical experimental encanta em meio a um prédio prestes a ser demolido

Quando descemos as escadas lotadas de instrumentos e vemos moradores carregarem objetos sem serem impressionados pelos músicos que ecoam ali religiosamente, surge a sensação de uma música que acontece porque deve, num impulso de denúncia e deslumbre, como se esse fosse o jeito mais verdadeiro de dizer, de pensar o tempo, em voz alta. Na trama flexível de Ópera Sem Ingressos, músicos e cantores guardam as memórias num condomínio "que está prestes a ser demolido", como anuncia a sinopse, condição de arte-desastre que me leva muito longe, lá no conto de Erich Zann, um violeiro que alimenta demônios com melodias intraduzíveis para convencê-los de não invadir a realidade.


Na regência dessa viagem está Andreia Pires, artista que vem construindo uma espécie de obra-coletiva em pedaços, atravessando cinema, teatro, musical e a performance para construir uma manifestação feroz do mundo - ou do que está restando dele. Nos filmes Corte e Prosopopeia, de 2021, já era possível compreender esse caminho formal e subjetivo; na fissura do plano-sequência e na emergência da música como um milagre do ritmo. Neste ano, o média Construção Civil, feito com a Inquieta Cia., o trabalho de uma longuíssima construção feita "para a destruição" chega como essa mensagem sobre a cidade e seus direitos.


Ópera Sem Ingresso soa, portanto, como se fosse uma colisão dessas histórias somadas ao carisma de cada um de seus atores e artistas, cantando enquanto encaram a câmera sem medo de sua hierarquia, de seu registro, pois são eles sob a imagem que a controlam na música que transborda para fora da realidade.


Atravessando cômodos, portas e corredores, o filme constrói um ritmo que consegue parecer delírio mesmo que fisicamente seja tão real, imperativo, imponente. Combinando com a mutação da própria música, que vai se alterando em espaço, cantor, tom, rima e gênero, a obra vai se desenhando como um manifesto consciente de que está contando muitas coisas. Inevitavelmente, somos levados. A resposta, se é que há, está pairando sobre o destino coletivo daquelas pessoas, como se sensorialmente elas fossem todos uma só.


Na iminência de seu fim, o prédio escuta o barulho de um Brasil que nunca se desatou da colonização, palco de uma crise moral em pleno ano dos 200 anos em que se diz independente. A bandeira e sua falsa história de riqueza, nosso rumo de desastre, afetado, porém, pela esperança do presente. "No campo minado, assim trabalhar, não dará!", anuncia seus pares no fim da rota, antes de virar a moeda: "E daria pra falar da vida, e daria, e dará, e dará e dará...". O que dará nesse país? É o que veremos quando ele terminar de ir ao chão. Veremos o que sobrou.

 
 

Este texto integra a Cobertura do 32º Cine Ceará


Direção: Andreia Pires

Produção: Pedro Madeira

Roteiro: Andreia Pires

Fotografia: Luiz Ramon

Direção de Arte: Andreia Pires

Montagem: Luiz Ramon

Música Original: Pedro Madeira

Som Direto: Rafael Brasileiro

Finalização de Som: Lauro Viana