• Arthur Gadelha

O Sonho do Inútil: preencher o futuro

CRÍTICA Ao longo de 15 anos, a história de um grupo de jovens alheios às consequências é contada numa carinhosa carta de lamento e amor


Quantas belezas deixadas nos cantos da vida

Que ninguém quer e nem mesmo procura encontrar

E quando os sonhos se tornam esperanças perdidas

Que alguém deixou morrer sem nem mesmo tentar


Recebemos como primeira imagem dessa longa história a de um helicóptero que seria constantemente retomada pela montagem para reforçar o cenário de vigilância e repressão sob qual o conflito de seus personagens está submetido na contraditória discussão de um país que cresceu aos trancos ao longo desse século tão transformador quando recheado de dívidas das mais diversas. Aqui no centro está José Marques de Carvalho Jr. (ou Júnior SQL) e sua atípica experiência com a projeção midiática, uma forma de lidar com a violência estrutural de um Rio de Janeiro ilhado.


Para justificar que essa história seja contada, José orgulhosamente põe em tela a forma como viu sua vida atravessada pelas fabulações no cinema e seus efeitos virais no então inédito mundo da internet. “O humor é sempre alguém se dando mal, né? Você faz a piada, tem um alvo. No nosso, o alvo somos nós” - da figura do palhaço em desarmonia com o espaço que o mundo lhe oferece, suas referências saltam do comediante Buster Keaton lá na origem das imagens ao Jackass, grupo de amigos que marcou o cruzamento de TV e internet ao longo dos anos 2000. Do lado de cá, ele narra a forma como esse contexto construiu o sonho do “Inútil” e compôs a precariedade imposta às suas sobrevivências periféricas.


Consolidada ainda cedo, a principal sensação é de testemunharmos um filme bastante honesto por nunca esconder (mas reforçar constantemente) o objetivo de transformar alegrias, frustrações, honras, arrependimentos e orgulhos num mesmo objeto para repensar o passado e preencher seus próprios futuros de outros sonhos. A montagem viaja de 2006 a 2021 fluindo entre personagens e situações sem nunca soar confusa ou gratuita na mistura de depoimentos com gravações antigas do grupo, apresentações em TV, fotos e novas filmagens.


Apesar de profundamente pessoal, passa longe de ser uma história ensimesmada, embriagada na própria intenção, como passamos a ver aos montes desde que a produção de cinema digital explodiu no Brasil e viabilizou histórias íntimas que tanto marcaram nosso cinema quanto o conformou. Aqui é o contrário, um filme de dentro para fora que revisita sensações e faz questão de pontuá-las nos diversos contextos da sociedade brasileira e sua indiferença à injustiça.


Ao longo do caminho, O Sonho do Inútil se permite ser um filme coletivo ao olhar para outros tempos e dar o tom de uma história que não termina. Então momentos como o relato do pai do Douglas ou a franca conversa entre Aluã e sua mãe chegam primeiro à tela do 10º Olhar de Cinema como cenas raras (e caras) na história do cinema brasileiro e dos espaços que ocupa. Afinal, não é qualquer cineasta que põe esses conflitos ora humorados e esperançosos ora violentos e melancólicos num mesmo filme sem que o objetivo se esgote. Constatando um Brasil rendido pela própria esperança, Júnior constrói sua história num filme que também nos lembra porque mesmo que existe o cinema.

★★★★

Direção: José Marques de Carvalho Jr.

Roteiro: José Marques de Carvalho Jr.

Elenco: Douglas Santos, Aluã Topeira, Daniel Nascimento, Diego Ald

Som: Douglas Omaskot

Música: Leo Zapata, Douglas Omaskot