• Arthur Gadelha

O Farol de Erich Zann

De bruxa às sereias, "O Farol" é uma evolução de Robert Eggers na condução de um horror sobre monstros

Num dos contos mais famosos de H. P. Lovecraft, um estudante de metafísica se hospeda numa espécie de pousada que fica ao fim de uma rua absurdamente íngreme. A cidade é rodeada por um alto e extenso muro, e apenas o quarto mais alto dessa casa ultrapassa sua altura, sendo o único lugar dali que permite uma visão para além dele. Lá mora um músico, chamado de Erich Zann, que tem sua presença notada às noites por tocar sua viola ao longo de todas as madrugadas. O estudante se alimenta desse mistério durante todo o curto conto, até que decide ir lá em cima para pedir uma pausa a música que lhe ensurdece. O que encontra lá… Não cabe neste texto. 


Robert Eggers, nome famoso do cinema indie-pop norte-americano, certamente leu não só este conto do Lovecraft, como muito provavelmente possui um conhecimento sobre a construção de sua atmosfera de horror sobre monstros marinhos e demônios da carne - isso porque seu segundo longa-metragem, O Farol, que será lançado em janeiro no Brasil, parece beber descaradamente desse mistério. 


Ephraim Winslow, vivido por um Robert Pattinson assustador, chega ao Farol-título para trabalhar com Thomas, o faroleiro que parece estar ali há décadas cuidado da luz que ilumina o oceano ao redor. Só Thomas tem acesso a cabine do imenso farol, enquanto a Ephraim cabe apenas o trabalho braçal. Está claro o que é a música e quem é Erich Zann, mas é ainda mais assustador perceber que os significados dos mistérios também coincidam. 


É a partir desse esquema serviçal que Eggers se instala para contar uma história de monstros do mar. A formalidade fotográfica, devota ao mistério meio óbvio do Preto & Branco, se acomoda muito rapidamente com a evocação claustrofóbica desse espaço. Essa sensação está refletida na trilha sonora que se arranha para contorcer a relação espinhosa desses homens brutos que estão ali como forma de lidarem com os próprios segredos. É um mistério inicial impressionante e Eggers aposta nisso. 


Há um momento muito bonito de desconstrução dessa formalidade, quando Thomas insiste na superstição de que matar aves marinhas traz azar. Quando Ephraim ri e Thomas precisa lhe dar um tapa para expressar o quão sério ele leva essa informação, a câmera de Eggers se desencaixa e percorre para trás, fazendo um movimento de amplitude do espaço que não havia surgido até ali. Está posta na mesa o quebra-cabeça estético em torno da psique desses personagens e sua relação com as sombras desse prédio. 


Há um horror calado no olhar de Pattinson que contrasta com o cansaço no visual sujo e desprezível de Willem Dafoe. O Farol é construído como um espaço de penitência, o inferno escalado - “As gaivotas são as almas dos marinheiros”. As ideias de um recanto que atrai os monstros e os demônios vão surgindo e se incrustando tanto à expectativa quanto ao forasteiro que implora para saber qual o segredo escondido na sala do farol. Por que Erich Zann toca essa música todas as noites? Para quem? O que ele vê para além da muralha?


O Farol é uma história até simples por apostar em loucuras e segredos para conduzir o arco de seus protagonistas, mas o que há de mais sedutor é mesmo a atmosfera do horror construída sobre pedras, bichos e memórias. Eggers é esperto por fazer desse universo aparentemente mitológico, um terror que é sobre o bicho humano - afinal, é a limitação do desejo e a prisão do orgasmo que parecem verdadeiramente contar o medo essa história.