• Arthur Gadelha

Nardjes A: reportagem crua da revolta

Atualizado: Mar 29

Revisitando a ascendência árabe de sua família, Karim Aïnouz se embriaga com as imagens de uma Argélia fervente

Não é de hoje que o desequilíbrio entre o poder e quem o mantem incomoda os artistas, principalmente porque são um dos alvos de qualquer repressão autoritária. Quando esse poder se blinda do próprio povo, a revolta é esse movimento automático e tão urgente que dá vontade de filmar, de estar junto, ampliar ainda mais o grito através do simples ato de torná-lo filme. É realmente possível mudar o mundo? É uma pergunta subjetiva cuja resposta caótica está nas telas de todos os países - é o que move Espero Tua (Re)Volta e Cabeça de Nêgo, por exemplo, para citar dois exemplos brilhantes do cinema brasileiro contemporâneo.


É nesse ímpeto que o cineasta cearense Karim Aïnouz posiciona seu olhar para 08 de março de 2019, um efusivo Dia Internacional da Mulher em plena Revolta dos Sorrisos (Hirak) em Argel, capital do país. Sua abertura, contrastando imagens do passado com um mar de gente no presente, dá conta de um breve contexto sobre a razão desse manifesto que inicialmente carregou um nome estranhamente tão simpático.


Com a premissa de observar um dia na pele de uma militante local (filmado inteiramente num smartphone), a montagem começa expondo a identidade do movimento: na rua caminha gente diversa, incluindo senhoras de idade e pessoas com bebê de colo. A energia, ora empolgante, ora tensa, faz parecer que estamos na empolgante final de uma Copa Mundial já que caminham com a bandeira da nação estampada enquanto ecoam gritos de guerra ritmados que parecem ter nascido no estádio.


Para além da intenção e das imagens contagiantes de um país em ebulição, porém, pouco resta de atraente nesse recorte de aparência inacabada sobre a esperança de um povo pela mutação do poder. O ritmo planificado não oferece qualquer conflito ou complexidade para além do que já se sente com 20 minutos de filme, pois a discussão é bastante redutiva do ponto de vista narrativo.


Nem Nardjes, personagem-título, é realmente um norte para essa narrativa despreocupada em superar o documento. Se o objetivo da obra fosse apenas ser uma prova visual da existência da revolução diante da pluralidade de argelinos que exigem democracia em pleno século XXI, essa estrutura seria mais orgânica e sincera caso fosse substituída por uma boa matéria jornalística acompanhada de trechos pontuais.


Da maneira como está, a jornada é exaustiva pela ausência de relatividade na presença de Nardjes e constantemente incômoda até quando tenta emular uma experiência particular de cinema, como quando as cores solidificam as imagens ou a sequência na boate. É como se Karim quisesse atribuir o sentimento da sua cumplicidade ao se reconhecer dentro desse movimento, só que de maneira muito tímida.

Ao menos, a imagem de uma revolta popular destemida fica na memória, além de que a mera existência fria da representação desse contexto já é suficiente para chamar atenção ao país e suas transformações. Nardjes A. é um filme que, mesmo sem chacoalhar, cumpre o que parece ser sua missão mais pessoal.

★★

Direção: Karim Aïnouz

País: Brasil, Argélia, Alemanha, França

Ano: 2020