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  • Foto do escritorArthur Gadelha

‘Mato Seco Em Chamas’ hipnotiza no delírio e no documento

CRÍTICA Joana Pimenta e Adirley Queirós incendeiam o estado estético e político do cinema brasileiro com uma distopia sem tempo


Diante de tudo o que já se tenha imaginado sobre o caos de um futuro cada vez mais repressivo, é especialmente curioso o que Joana Pimenta e Adirley Queirós fazem para que essa história transpire uma sensação muito nova durante toda sua longuíssima projeção. Ao centro de uma tensão interminável, permeada de camadas entre fábula e realidade, estão Chitara e Léa, negociadoras clandestinas de petróleo em Sol Nascente, favela que fica na Ceilândia (DF). Além do conflitos já existentes numa sociedade alimentada pela exclusão, elas redobram a própria condição à espreita de um país que ameaça seguir o rumo da extrema-direita à olhos nus.


A primeira grande inquietação de Mato Seco em Chamas é o jeito que ele nos coloca num infindável estado de alerta, custando a se revelar sobre os graus simbólicos e realistas que agem sobre seus cenários, sua câmera e principalmente sobre suas personagens. Porque ao mesmo tempo em que nos leva a distopias de rebelião como Mad Max 2 (1981) e Tremor Iê (2018), também acessa referências de Baronesa (2017) e A Vizinhança do Tigre (2014). Ou seja, ao olhar e imaginar um tempo entre lá e aqui, o filme constrói um futuro que acontece agora - tanto que quando a base propriamente documental se revela no relato verbal e visual, isso não deve assustar nem quem desconhece o cinema prévio do Adirley.


Com Joana, a dupla eleva essa dualidade num grau impressionante de cuidado e paciência porque a montagem de Cristina Amaral escolhe fazer deste um filme imenso. Ele poderia ter 1h30 se quisesse ser uma história de conflito-solução, contentado-se com uma ligação direta entre missão e consequência das gasolineiras diante de um universo político extremista na liquidação do crime. Mas ele não quer ser isso. O Brasil, como a gente já sabe, não tem solução. As motos roncam, os cigarros queimam, e a gente vai mergulhando na hipnose de uma cidade, de uma nação, de mulheres que se encaram numa existência sem fim. É fantasia, mas ainda é documento. É pergunta e resposta, de novo e de novo, na promessa vazia de um mundo pelo qual vale a pena lutar.


Mato Seco em Chamas
Léa Alves e Joana Darc

Nessa construção, a hipnose também é estabelecida num esforço assustador da própria imagem para dar ao que vemos na tela essa sensação de um mundo à beira do colapso, da explosão, das chamas. Joana Pimenta, que também é a fotógrafa do filme, consegue criar uma atmosfera de suspense em meio a escuridão, quase sempre sustentada pela ligação da luz amarela dos postes com a terra vermelha, numa espécie de sépia-mato-seco, olhando para uma realidade muito tensionada. Joana Darc e Léa Alves ocupam esses espaços de forma enigmática, levando-nos a uma espiral de sensações a cada novo diálogo que travam de forma íntima, natural e cheia de contextos.


Nessa odisseia de uma trama que age politicamente sobre o Brasil em que vive, especialmente pelo Distrito Federal vir se tornando cada vez mais alinhado com discursos violentamente conservadores (ao ponto de elegerem Damares Alves), a realidade, claro, ajuda: Jair Bolsonaro não é uma metáfora ou uma mera citação - como ele surge em Marte Um (2022) -, mas ele é de fato um personagem, a imagem direta de um antagonismo representado por seus valores. Talvez sua entrada literal borre um pouco a força alegórica da história, construindo um objetivo muito claro para uma mensagem que se isolada teria poder mais amplo; a sequência em que um tanque faz uma patrulha com auxílio de dois drones, por exemplo, contribui mais para a fábula do que para uma mera observação da realidade.


Desse jeito gigante, cíclico e profundamente elétrico, Mato Seco em Chamas venceu oito prêmios no 55º Festival de Cinema de Brasília, incluindo direção, roteiro e atrizes. Chega aos cinemas já com essa cara de que será lembrado e estudado por muitos e muitos anos. Não é um filme que se encerra, que se revela, mas que sabe se destrinchar sem mostras as vísceras.

 
 

Direção: Joana Pimenta e Adirley Queirós

Produção: Joana Darc Futado, Léa Alves da Silva, Andreia Vieira,

Débora Alencar, Gleide Firmino e Mara Alves

Direção de Fotografia: Joana Pimenta

Direção de Som: Francisco Craesmeyer

Direção de Arte: Denise Vieira

Montagem: Cristina Amaral

Ano de Estreia: 2022

País: Brasil

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