• Arthur Gadelha

Mate-Me Por Favor: libertação, medo e horror

Aventura descompromissada de vidas adolescentes que encontram as ameaças da cidade


O que há de mais admirável nesse longa de estreia da cineasta carioca Anita Rocha da Silveira é que há uma consciência muito clara diante da flexibilidade da obra ao se entender tão entregue às nuances do "cinema de gênero" enquanto abre espaços conflituosos para uma discussão política sobre a cidade e o corpo feminino - essa soma, ora divisão, ora subtração, é bastante corajosa para um primeiro respiro no universo de longas-metragens.


Flertando diretamente com o thriller, Anita põe na mesma balança relacionamentos adolescentes (e tudo que lhe envolve, no maior estilo ‘Malhação’) e o suspense psicológico que a cidade ameaçadora impõe sobre essas vivências tão "descompromissadas". Bia (Valentina Herszage) está inserida em um universo comum às representações de sua idade, tendo que lidar exclusivamente com seus estudos e seu namorado - já temos os pontos do Coming of Age Scholar. Distante disso, há um traço peculiar: Bia tem um mórbido interesse por morte, por mais que isso ora lhe assombre, ora lhe acalme - morte, sangue, violência, sensação de perigo. Ela parece estar atrás de algum conceito que abrace tudo isso de maneira compreensível. “De certo modo a Bia quer morrer. De certo modo ela também quer matar”, disse Anita em entrevista para a Trip.


Para dar forma dramática ao que molda sua protagonista, a trama explora uma onda de assassinatos a mulheres que vêm acontecendo constantemente e assustando a todos na região. Bia, evidentemente, têm um (acanhado) grau de interesse que ultrapassa a curiosidade e fica muito claro que, de alguma forma, Bia quer se envolver. É exatamente isso que torna “Mate-Me Por Favor” um filme rico em essência; não há pudor em seu pensamento, sequer em sua vontade de ser livre para buscar reflexões nada óbvias, enquanto seus traços do horror estão nessa abordagem ora sutil, ora brutal. A formação da consciência da Bia é muito corajosa ao alarmar a transição entre seu envolvimento com o medo e a reação ao que lhe parece comum. Há cenas de impacto muito objetivas contornadas de um intenso realismo (parte pela química entre as amigas) e cenas metafóricas brilhantes em execução.


Identificando-se cada vez mais como uma personalização de moldes do gênero, o longa chega ao ponto de brincar com situações idênticas, como a existência oculta de um assassino que se esconde durante todo o filme. Mas, ao invés de usá-lo como uma justificativa do mistério, contorna seus significados e seu foco vai muito além, acusando, inclusive, a comodidade do espectador que acreditava estar testemunhando uma conclusão sobre as mortes e não sobre Bia.


Por mais que demore muito tempo, o último plano de “Mate-Me Por Favor” deixa muito claro o motivo de acompanharmos aquela história – e ele pode ser imensamente frustrante para muitos. Estamos diante uma garota que, dentro de seu universo de libertação, está atrás de sentir, mesmo que isso signifique se aproximar da tragédia. Sua relação com essa ausência se torna cada vez mais complexa expandindo a construção até mesmo à exploração da cidade e banalização da violência. Todas essas questões cabem na mente macabra de Anita Rocha da Silveira. E isso é genial.

★★★★★

Direção: Anita Rocha da Silveira

País: Brasil (RJ)

Ano: 2015