• Arthur Gadelha

Lady Gaga surge como enigma no documentário "Five Foot Two" da Netflix

CRÍTICA Dirigido por Chris Moukarbel, filme encara o meio-campo entre a espontaneidade e a fabricação de uma artista que se enxerga no limite

Essa semana, ouvi uma discussão que questionava se Lady Gaga seria lembrada daqui a 500 anos, como se pressupõe que Michael Jackson e Madonna serão. Não é uma questão que depende de qualidade ou de gosto pessoal, mas de uma visão macroscópica do impacto que a artista incide diante das incontáveis mutações pelas quais passou desde 2008 – e pensando bem, faz pouco tempo que “Just Dance” emplacou nas paradas mundiais enquanto a artista tinha pouco mais de 20 anos.


Ainda não podemos concluir nada quanto a isso, mas o documentário de Chris Moukarbel, feito por encomenda da Netflix, explicita de modo limpíssimo a própria pretensão em contribuir de qualquer forma a essa projeção. Quem é essa mulher que se veste até de carne? Quem é essa mulher que canta pop, jazz e "country"?


Durante pouco mais de 90 minutos, Chris não está tão interessado em respostas ousadas em torno da megalomania que Gaga representa. Afinal, pouco vemos de sua carreira prévia (destaque para a interessante sequência do encontro com os fãs), ou qualquer drama imaginável sobre a coerção industrial que tanto já foi pauta em suas composições. Gaga: Five Foot Two, aos poucos revela, não é sobre a fama, e tampouco é genuinamente sobre Lady Gaga. É mais ou menos sobre uma menina que precisou ser a mulher de hoje - o passado renderia, portanto, algo ainda mais complicado.


Entrando em situações íntimas sem muito critério, o filme se resume a uma constante expectativa de interesse, questionamento, descoberta, enquanto só parece funcionar verdadeiramente pela curiosidade de todo e qualquer traço que identifique esse ícone como ser humano: conversas à beira da piscina, rotinas caseiras, falas sobre relacionamentos. Saltamos de uma gravação em estúdio para um momento de dor; em seguida estamos numa conversa com alguém ao telefone, de repente surge Florence (Florence + The Machine), Gaga bate o carro, está em reunião, discute com seus produtores.


Afastando-se de ser informativo ou até mesmo emocional, o recorte de Chris parece amador em algumas direções, e claro que o objeto “limitado” exerce muita influência. Sua condução me lembra imediatamente Coração Vagabundo, filme de Fernando Grostein Andrade que acompanha os passos de Caetano Veloso capturando sua percepção das coisas em tempo real sem que isso leve a algum lugar específico. A execução aqui é outra porque Gaga não está construindo qualquer pensamento diante da realidade para além dela, mas só permitindo que uma câmera a acompanhe em momentos "aleatórios" do dia-a-dia. Na prática, menos que um filme autoral, o produto parece um conteúdo extra que poderia estar em algum de seus DVDs.


Fazendo uma síntese, os "alicerces" do filme são o lançamento do álbum "Joanne", e os bastidores da histórica apresentação no intervalo do Super Bowl. Mas nada disso é necessariamente completo, porque a Chris importa as curtas recepções e reações de sua protagonista. Vemos pouco quem está ao seu redor, apenas o suficiente para os percebermos. O produtor Mark Ronson, por exemplo, é uma figura que coexiste em algumas situações, e sua relação com Gaga ainda parece sólida apesar de tão reduzida.


Mas ambiciosamente ou não, e classifica-lo como importante é o que menos faz sentido, o filme desvenda rapidamente as estratégias de uma Lady Gaga lúcida dos fatores ao redor – e essas questões formam alguns bons momentos na estrutura documental. A cena em que Gaga aparenta nervosa com a própria equipe ou, em especial, em que mostra a canção “Joanne” a sua avó, são chaves de uma obra que precisa “vender” a humanidade que vive nessa artista.


Gaga se preocupa constantemente com a reação dos fãs: “Será que vão estranhar eu não estar com uma peruca?”. Ela teme, de certo modo explicitamente, se os fãs conquistados na brilhante estranheza desde “The Fame” vão entender que agora ela está livre. Vemos seus momentos de fraqueza (em maioria relacionados a doença que a fez cancelar a participação no Rock in Rio), mas isso não significa para Chris deixar de dignificar sua força de aparência tão sedutora.


Afinal, a Lady Gaga que o mercado mundial viu nascer ainda parece íntegra em cada um dos relatos, seja direta ou indiretamente, como na reunião com a equipe chefe do Super Bowl ou no desabafo sobre Madonna. Quando diz ao diretor do evento que não pretende fazer o que já esperam que faça, a memória puxa rapidamente todas as performances que necessariamente precisavam ultrapassar a expectativa. É dessa mulher que estamos falando! Gaga se despede do último álbum “ARTPOP” assumindo o desafio de “confrontar os críticos sobre o certo e o errado”, e isso tudo tem a ver em espírito com a pessoa tão radiante que aparece sob as lentes claras de Chris.

Quando esteve no Festival de Toronto para divulgar o documentário, perguntaram a Gaga o porquê desse filme ser produzido neste momento. Não há uma resposta concisa, porque Gaga: Five Foot Two não é muito categórico sequer sobre o foco, mas é autêntico na proposta de ao menos querer ir atrás de algo atraente, interessante, e talvez significante. Na prática, todos sabemos que é apenas promoção de seu novo álbum. Ainda teremos uma obra que entenda quem é Lady Gaga, mas, por enquanto, parece muito bonito que algo tão simples e parcial já seja capaz de fazermos enxerga-la diferente. Tanto quem a enxerga como a "artista estranha", como quem acredita que a conhece para além disso, certamente irá se surpreender. A Gaga de hoje pode não ser a de amanhã, e vê-la de perto pode sempre ser um exercício novo.