• Arthur Gadelha

A experiência de viver um show de Lady Gaga na tour “Chromatica Ball”

ENSAIO Numa noite inesquecível, a história de Lady Gaga

Na última semana de julho, tive daquelas experiências que só se vive uma vez na vida: fui a um show da Lady Gaga, artista da qual me tornei fã aos 12 anos quando me deparei com a ficção autoconsciente de uma diva pop muito incomum para aquele momento de transição entre a música física e a digital. Àquela altura, ver Gaga ao vivo era o único sonho da minha vida, este finalmente realizado 14 anos depois agora que já tenho muitos outros para realizar. Fui assisti-la no quarto show da tour The Chromatica Ball (adiada por dois anos devido a pandemia) que aconteceu no dia 26 de julho em Arnhem, uma pequena cidade no interior dos Países Baixos a cerca de uma hora de Amsterdã, e fui sozinho, sem saber o que encontraria e como lidaria com essa experiência.


Chegar na cidade foi uma experiência timidamente emocionante pois por todo lado era possível ver alguma menção ao show - além das placas indicando o caminho do estádio e dos cartazes em túneis, me surpreendi ao ver uma pixação urbana digna de uma Gaga lá de 2009, talvez numa referência ao sangue que escorre na apresentação de Paparazzi do VMA? Independente da inspiração, a certeza é que o autor foi um fã, propondo uma transgressão gráfica numa cidade tão pacata.


Amigos de fila: Pedro, Kennedy e Yhes (BR); Sarah (PT), Kevin (NL) e Ronald (CO)

Chego na fila às oito horas da manhã e, literalmente, a primeira pessoa com quem eu falo é logo outro cearense que estava ali tão longe de casa numa rodinha com mais brasileiros. Conexão imediata. Remoemos as mágoas do Rock in Rio, expectativas para a apresentação de logo mais, e as lembranças que alguns tinham de quando a Born This Way Ball passou pelo Brasil em 2012 e eu não consegui ir.


Depois de 10 horas de fila, com direito a chuva e sol, diversas idas ao banheiro, compras de vinho e comida, e muita conversa aleatória com fãs da Colômbia, Alemanha e Portugal, finalmente entramos no "Museu da Brutalidade", nome que Gaga deu a estrutura da turnê. Em pé, precisamos esperar por mais três horas para que ela finalmente entrasse em palco enquanto nós todos já estávamos no limite da condição física com dores nas costas e ansiedade no máximo. Mas ela veio e todas as dores valeram a pena.


Fiquei extasiado, parecia um sonho, uma visão, tão inédito que às vezes esquecia que era eu mesmo que estava ali, que não era um vídeo na minha frente, e lembrava toda hora do verso de Enigma "Is what I am seeing real, or is it just a sign?". Sensação indescritível de euforia e felicidade. E que delícia a primeira vez que eu a assisto ao vivo ter sido justamente nessa tour, construída quase 15 anos depois da sua primeira, ela agora tão madura e cantando honestamente sobre o tanto que mudou como artista nesse tempo todo. Eu, como sempre motivado a interpretar seus passos, compartilho abaixo um olhar sobre a história que Lady Gaga nos contou naquela noite.



Apesar dos rumores e vazamentos, foi uma surpresa absoluta para todos os fãs que a setlist abrisse com três músicas que não fazem parte do álbum Chromatica. É um gesto inédito na carreira da artista que sempre levou sua produção mais recente para promover a estrutura dos shows - abrir com Bad Romance, então, seu sucesso mais absoluto, foi interpretado como um ato corajoso pela imprensa de cada cidade pela qual a turnê passeou até agora, lembrando que os maiores hits são geralmente deixados por último. Na sua turnê passada, Joanne World Tour, ela era a penúltima. Seguida por Just Dance e Poker Face, a trinca de canções fecham uma abertura estranha: Lady Gaga está durante todo o prólogo aprisionada numa roupa cinza, distante dos seus dançarinos em movimentos robotizados. As luzes apagam. Entra o ATO I com trilha sonora de Chromatica I, e então ela surge deitada numa mesa de cirurgia cantando Alice: "Você poderia me tirar disso viva? Onde está meu corpo, estou presa na minha mente...", ela canta. O show, de fato, começa. O que está nos contando?

 

ATO I: Alice, Replay e Monster

Quando cai a ficha a mensagem ganha potência. Honrando o acerto de contas que o álbum Chromatica representou na sua carreira, uma espécie de continuação honesta do "monstro da fama", Gaga põe seu show como um expurgo das dores que sua personagem carregou até ali, aprisionada pela figura pop que ela, a indústria e a mídia fizeram questão de cristalizar. "Passei muito tempo dançando totalmente sozinha, dançando sempre a mesma música...", ela canta em Plastic Doll, música que curiosamente não está na setlist da tour. Os sucessos anteriores, que ela faz questão de cantar aprisionada, representa isso com um pulso contagiante.


O Projeto Chromatica se consagra, portanto, como essa cirurgia onde ela insere em Lady Gaga uma fusão com ela mesma, a autora que viveu por tantos anos escondida. No refrão de Replay, que vem logo em seguida, a energia que vem da guitarra passa por seus saltos e olhares elétricos e vai parar na plateia que pula como se não houvesse amanhã, como se aquele show, naquele estádio, fosse a última coisa divertida do mundo. É um expurgo, um grito de desespero e alívio, um vômito das cicatrizes que circulam dentro de nós. Para encerrar com chave de ouro, Gaga resgata Monster (2009), uma de suas músicas mais deliciosas e que aqui surge num novo diálogo com esses monstros que tanto lhe temiam: "He ate my heart and then he ate my brain...". Como homenagem e celebração, ela recria a apresentação original da The Fame Monster Ball, com direito até ao salto triunfal ao fim, como se fosse uma superação ou domínio de uma situação um dia tão constrangedora.

 

ATO II: 911, Sour Candy, Telephone e LoveGame

Com a chegada da famosa transição de Chromatica II para 911, somos convidados a entrar num expurgo das naturezas mentais - recebendo destaque da artista para uma pequena live no VMA de 2020 e até para um clipe superproduzido, 911 no palco é uma canção ainda mais memorável, pois vestida num traje com direito ao "chapéu de polícia" que nos lembra o usado no Coachella para cantar Sheibe, Gaga performa com os olhos bem abertos e com movimentos quase cartunescos: "Mantendo-se tão firme nesse status, não é real, mas vou tentar mantê-lo...".


Sour Candy vem em seguida como a roupagem de uma mulher agora por cima das limitações, com uma pegada mais arredia e determinada: "I'm hard on the outside but if you see inside, inside, inside...", canta depois dos icônicos gritinhos em espelho aos criados pelo BLACKPINK no início da canção de estúdio. As veteranas Telephone e LoveGame, que sempre tiveram uma visão de dominação, aqui têm suas mensagens reforçadas no surgimento de uma Lady Gaga consciente de seu autocontrole.

 

ATO III: Babylon, Free Woman e Born This Way

Quando volta do terceiro instrumental do Chromatica, eliminando Sine From Above para a tristeza dos fãs, Lady Gaga leva o público ao delírio com Babylon, essa que talvez seja a mais memorável de todo o álbum. Somada a coreografia que bate a mão como se fosse de uma boca fofocando, seu grito eletriza todo mundo quando chega no refrão: "COME ON KIDS" (texto que muitos escutam "COME ON GAYS"), antes de entrar no verso icônico:


"Aguente, caminhe uma milha

Sirva, estilo antigo da cidade

Fale, balbucie

Lute pela sua vida, Babilônia

Isso é fofoca, o que você está usando?

Dinheiro não fala, rasgue essa música

Fofoca, balbucie

Lute pela sua vida, Babilônia"


Se a mensagem de libertação/cura não tivesse ficado clara, em seguida é celebrada com "Free Woman", canção já dita preferida da artista que relembra de forma gentil a distância de hoje para um tempo em que ela não era nem conhecida. "Esta é a pista de dança pela qual lutei", ela canta enquanto caminha, literalmente, pela pista do show, no meio da plateia, e em certo momento até se curva como que agradecendo o fato de estarmos ali todos juntos nesse novo momento da sua vida. No outro palco, ela encerra esse ato com a já conhecida versão piano de "Born This Way" com uma surpresa: a versão de estúdio, batidão, que vem a partir do segundo estrofe. Neste momento agora, é como uma atualização carinhosa de tudo o que essa música representa para nossas vidas. “I love my life, I love this record, and I’m on the right track baby, I was Born This Way”

 

ATO IV: Shallow, Always Remember Us This Way, The Edge of Glory, 1000 Doves, Fun Tonight e Enigma

Nesse pedaço muito especial, um tom inédito de Lady Gaga é introduzido quando ela surge para cantar "Shallow" trajada com uma máscara da era Chromatica - ou seja, é uma colisão de mundos tão distantes que assusta e nos leva a pensar sobre a delicadeza dessa mensagem.


Quando Shallow estava prestes a surgir, e explodir, o filme “Nasce Uma Estrela” chegou a ser anunciado para a imprensa como o primeiro filme de Stefani Germanotta, nome de nascimento de Gaga (eu mesmo cheguei a receber esse release). Depois a Warner mudou de ideia, mas era clara a criação de uma imagem alternativa àquela artista um dia tão estranha. Das vezes passadas que cantou essa música ao vivo, seu rosto e seu figurino passavam essa impressão de “limpeza”, como a tão delicada e memorável do Oscar. A era de Shallow e a era do Jazz (Cheek to Cheek, Love For Sale e Vegas) transformaram a Gaga-Monstro numa Gaga-Humana e ela ganhou novos públicos. Incrível. Chromatica Ball, porém, as reúne com charme. Ela surge dessa forma cartunesca, um jeito direto e caricato de declarar que Gaga e Stefani hoje finalmente estão juntas na mesma artista, uma alienígena que acabou de pousar no mundo muito distante da superficialidade.


Essa mensagem se confirma nas músicas a seguir, especialmente no desfecho elétrico de “Enigma”, performance que ela sustenta absolutamente sozinha no centro do palco (e do estádio), sem dançarinos ou estrutura, cantando sobre o mistério que sua figura sempre será para a plateia, alguém impossível de decifrar, assim como toda artista da indústria pop. O que ela significa para nós e o que nós significamos para ela? A resposta, sem destino, ela nos dá no palco, saltando sozinha com o microfone no pedestal, enquanto o estádio inteiro dança:


"Poderíamos ser amantes, mesmo que só nesta noite Podemos ser o que você quiser Poderíamos ser palhaços trazidos para a luz do dia Poderíamos quebrar todo o nosso estigma Eu serei seu enigma Eu serei seu enigma Eu serei seu enigma Eu serei seu enigma"

 

FINALE: Stupid Love e Rain on Me

Os desfecho da tour não poderia ser mais curiosamente contraditório, elemento esse que nunca desgrudou da arte-auto-determinada de Lady Gaga. Um bloco a seguir tão radiante com as alegres Stupid Love e Rain on Me é precedido por uma interlude sombria. Nela, Gaga profere um monólogo caótico cuja mensagem soa recheada de códigos, como se ela estivesse tentando dizer algo que não pode ser assim tão público. Se lembrarmos daquele manifesto que ela lançou com a tour do The Fame pensando o papel do artista pop, esse novo preenche sua obra quase como uma antítese, na sensação de que na indústria da arte, o conceito de "liberdade" nunca é algo palpável, e que é por isso que essa arte comercial existe, para subverter essa prisão e fazê-la ser suportável já que na "natureza" da fama é cada um por si, como ela diz: "um cavaleiro" que perambula "sem rei ou corte". Abaixo, uma tradução livre:


"Todo mundo está quieto? Quem estuda a honestidade com olhar selvagem, através de sua estranheza deve voar… Através da alquimia, a mente do artista, um labirinto, um labirinto de almas, cria alegria e sofrimento. Admirado por todos os fiéis ao seu ofício, meu suspiro é rápido ao imaginar que somos livres. Assim como todas as crianças aprendem a rir tão sem esforço, tenho amor por ti. Se a fantasia pudesse fazer um amigo, a paleta dos seus sonhos os deixaria loucos além do universo que você conhece, e enquanto alguns ainda procuram uma cor que nunca tiveram. Esta vida é apenas arte em suporte da vida. E a natureza é apenas um cavaleiro. Sem rei ou corte"


E vale comentar que a versão ao vivo de Stupid Love ganha um sabor muito especial, principalmente por virar algo "mais rock", mais físico, e funciona muito como celebração de um momento mais leve, ao mesmo tempo intenso, de Lady Gaga como artista de um mundo pop que já  mudou tanto. "Agora é hora de me libertar da vergonha. Eu tenho que encontrar essa paz. É tarde demais ou esse amor poderia me proteger da dor?" - é importante que essa mensagem seja cafona, quase uma caricatura do que ela foi um dia. Afinal, não é do perfil "diva suprema do pop" se apresentar frágil, pedindo ajuda. É um final elétrico e carinhoso.

 

EPÍLOGO: Hold My Hand

Ninguém esperava que o desfecho da tour fosse também com uma música fora do álbum. Mas depois do que ela nos contou nessa noite, tudo faz sentido: Chromatica é "apenas" uma transição, o caminho entre uma Lady Gaga refém (Bad Romance) e uma Lady Gaga liberta de si (Hold My Hand). Escrita para a aclamada sequência de Top Gun, lançada neste mesmo ano, a música ganha um significado especial quando performada no palco: Gaga ergue suas mãos - uma está nua e a outra carrega garras que nos lembra o "monstro" de Born This Way. A mensagem, então, está posta: pela primeira vez Lady Gaga e Stefani Germanotta estão juntas, convocando seus admiradores para continuarem com elas nos rumos que vêm a seguir. "I fucking love you", ela grita para o estádio lotado em Arnhem. E então sai de cena, saltando sobre a linha de fogo estendida no palco. Estamos prontos para o próximo capítulo, seja qual ele for.


"I've heard a story, a girl, she once told me

That I would be happy again

Hold my hand"