• Arthur Gadelha

Fôlego Vivo: os pés que foram embora

Das terras destruídas, as águas que custaram, os bichos que não passam mais


Ao longo da montagem de Fôlego Vivo, curta-metragem realizado pela Associação dos Índios Cariris do Poço Dantas (CE), os moradores dessa terra surgem, sempre em pequenos grupos, pondo em evidência o fato de que respiram, uma poética clara sobre a resistência da memória de como esses povos foram conhecidos e sobre a iminência de se manter o fôlego diante dos obstáculos contemporâneos: as plantações escassas, a falta de água, a invasão protocolar nas terras.


Entrecortado com os depoimentos, tradicionais ao documentário como gênero de "verdade", o filme ficciona os relatos ao reencaixar a presença indígena dentro da cidade também. É um gesto bastante simples e pouco desenvolvido, mas também sincero da insistência sobre o descaso. Nessa conversão de narrativa, a desapropriação das terras por parte do poder público é apresentada com didatismo que não impede a subjetividade do texto, a inquietação das conversas, fazendo com que os ruídos técnicos partam para a borda desse relato.


Fôlego Vivo, apesar de ser um "filme-denúncia", traz um sentimento anestesiado diante da sua constatação do passado, de um tempo cujas destruições evocam uma indignação silenciosa e expõem a imobilização de uma resposta. Quem são "esses homens" que derrubaram os pés de frutas e interromperam o caminho das onças? "Aqui era mato, aí acabaram tudo". E agora? Deixar essa pergunta é o objetivo mais singelo do manifesto que precisava ser audiovisual e integralmente dedicado ao presente.


Filme assistido no 1º Levante – Festival de Curtas-Metragens de Pelotas

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