• Arthur Gadelha

Entre certeza e reflexão: pra que serve a Crítica de Cinema?



Em julho de 2019, quando a escola Porto Iracema das Artes convidou a mim e Kamilla Medeiros para ministrar uma oficina de crítica e curadoria de cinema, entrei num embate interno - não para entender o significado literal da crítica de cinema enquanto gênero jornalístico ou prática de ensaio, mas para entender o que ela significava para mim. A inquietação principal partia de uma percepção pessoal de que a crítica amplamente popular e digital parecia pautada ou pela certeza ou pelas numerações, conceito que me incomodava enquanto leitor. Crítica, afinal, como também um manifesto artístico, não me parece combinar com a exatidão. Além de rotulado pelo seu próprio tempo, o olhar crítico sempre é profundamente pessoal porque ele fala à partir de um lugar, de uma vivência e experiência particulares. Sinto que é preciso admitir isso, sabe?


Não pertenço à linha de textos técnicos porque tudo parte de contexto, de experiência, de disponibilidade. Por isso eu, como espectador, preciso assumir também que o texto que estou lendo não tem qualquer dever de me proporcionar satisfação. Eu naturalmente vou escolher o que aceitar de um pensamento a partir do que eu penso, e a crítica tem esse gatilho essencial de me fazer pensar em que ponto essa "verdade" existe.


Se fugir das certezas, a crítica faz mais sentido. É claro que há obras praticamente impossíveis de escapar do consenso quase absoluto, como é o caso de Parasita, de Bong Joon-Ho e Retrato de uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma, para citar dois exemplos recentes de aclamações críticas num contexto onde o volume imenso de opiniões acaba fazendo com que muitas se repitam. Mas fugir das certezas é, também, perceber que não é justo traçar uma régua para todos os filmes, como descreveu Jean-Claude Bernardet sobre uma epifania crítica dentro do cinema brasileiro dos anos 1960:


Os melhores críticos foram aqueles que aceitaram essa provocação e entraram em crise. Diante de tamanho projeto, não era mais possível dar nota oito à fotografia, cinco à interpretação e fazer a média. (BERNADET, 1979)

É preciso estar sempre em crise. Ou seja, um manifesto contra a "verdade" não significa fazer do crítico uma figura passiva que propõe apenas sugestões sobre o próprio pensamento. Claro que a certeza pessoal é um elemento indiscutível - isso é, afinal, o motor das calorosas discussões sobre cinema que fervem os corredores de qualquer festival de cinema. Mas essa certeza pode cristalizar e virar arrogância, então a prática perde discussão.


A crítica, assim como a realização, não é uma prática redonda, elas convergem na dúvida também. Sinto que elas são mais potentes quando te deixam perguntas, quando te incomodam. Amo ler uma crítica e não ter uma percepção óbvia se ela é positiva ou negativa. Gosto de pensar a crítica como uma ferramenta para pensar os filmes em seus tempos, localizá-los na história, projetá-los nas próprias percepções respeitando a sinceridade e identidade dessas próprias obras e de si mesmo.


Se eu penso uma coisa e a crítica pensa outra, ela quebra essa dicotomia quando se afasta de uma uniformidade (que é quando estou lendo algo que não me faz pensar nada para além do que pensei). Só o fato de um autor dizer que interpretou um aspecto da obra de uma forma, e eu discordar da maneira como o autor chegou nesse raciocínio, é um estímulo para que eu desenvolva o porquê de eu sentir a mesma coisa de forma diferente. Ela força que os pensamentos sejam colocados para fora e, nesse jogo, eu geralmente descubro novas coisas - e já não importa se essa "nova coisa" estava no texto ou em mim, mas ela só saiu porque conversei com a crítica.


Se eu pensar algo que um texto pensa exatamente igual pode ser uma super coincidência - para mim não vai ser importante, mas para outra pessoa vai ser. Eu posso interpretar que algumas críticas não tenham nem vontade de sair de um espelho da obra apenas como forma, presas em tons de resenha ou discussões como "a trilha é muito boa porque evoca os anos 90" - mas por quê evoca os anos 90? Eu, subjetivamente, posso achar uma crítica ruim. O que não quer dizer que ela seja, efetivamente, ruim ou boa.


Textos de crítico como, por exemplo, Eduardo Valente, Carol Almeida, Bruno Carmelo, Marcelo Ikeda, Janaína Oliveira e Ivonete Pinto, alcançam critérios de racionalidade da opinião que, para mim, deixa de ser questão de concordar ou não. É a construção dos argumentos que me impressiona sempre, principalmente quando não concordo, é essa construção que move a crítica para frente como um corpo coletivo.


A crítica passa a ser avaliada pelos mesmos critérios dos filmes analisados por ela, como uma obra de arte autônoma. Não é à toa que a crítica de cinema de viés autoral, especialmente aquela da revista francesa Cahiers du Cinéma na década de 1950 e 1960, considerava-se tão criadora quanto os cineastas, por ser ela quem descobriu autores e consolidou a qualidade de seus trabalhos, como nos casos de Alfred Hitchcock e Ingmar Bergman. Os diretores criam as obras e os críticos, por sua vez, criam os criadores, inserindo-os na cultura e na História. (CARMELO, 2019)

Epílogo

Um exemplo que me ensinou, há 10 anos, quando descobri que a crítica de cinema não tinha como principal função ser um guia gentil de indicações cinéfilas: sobre "A Árvore da Vida", de Terrence Malick, há interpretações de que o tom divino do filme seja bobo, tolo e superficial. Eu nunca entendi quem sente isso até ler uma crítica (só não lembro agora exatamente de quem e onde foi) que o autor argumentava sobre essa interpretação de um sentimento planificado em luz, "beleza" e bondade que constrói uma irrealidade do sentimento, um outro canto que parece existir apenas para o diretor que sonha com esse passado. Foi importante pra mim entender como alguém chegou a esse raciocínio porque eu estava muito embriagado com a minha própria sensação da história. Continuo achando o tom divino do filme transcendental e complexo, mas agora entendo quem não acha.

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