• Arthur Gadelha

Eleições: a brincadeira do mundo real

Alice Riff encontra nessa "simulação da realidade" o brilhante tom entre brincadeira e "coisa séria"


Parece não haver ano melhor para que um filme como Eleições tenha sido concebido. Em 2018, diante da maior ruptura política vivida pelo Brasil com a eleição de Jair Bolsonaro, a câmera da paulista Alice Riff é redirecionada para o que parece ser uma realidade paralela: as eleições para o grêmio estudantil de uma escola pública de São Paulo.


"A gente tem que ter consciência de que a escola é nossa segunda casa. É uma casa que a gente não gosta de vir? É. Mas a gente tem que vir. Então a gente tem que cuidar como se fosse nossa casa realmente" - fala em assembleia.


A partir da visão de quatro chapas que se articularam para o processo eleitoral, o filme se beneficia pela sinceridade com que a política é construída para além do contexto de "evento" que representa socialmente. O espaço em que essa política existe, as pautas, e principalmente as utopias que ainda estão se construindo por debaixo de suas compreensões das relações de poder. Por isso é brilhante que Alice dê vazão aos seus sentimentos de forma integral, afastando-se de uma projeção polida ou meramente idealista. Quando uma das chapas revela que entrou na campanha primeiramente para faltar aula e, em seguida, percebeu a necessidade de representação é um desses momentos.


Nem parece que é intenção explícita dessa narrativa que o conturbado Brasil de 2018 seja "simulado" nesse microcosmo, e Riff não teia essa discussão frontalmente, deixando para que ela aconteça às margens: na relação com a polícia, filmada de forma assustada, ou na hierarquia do poder dentro da educação pública. É por certo desprendimento de correlações ou alegorias que Alice dá mais tempo a conflitos como a reivindicação da música no intervalo (e suas discussões morais) e o extenso processo de organização de suas ideias.


"Política é política. Não tem idade", afirma o presidente da chapa ID em reposta à fala de que aqueles jovens não eram "políticos de verdade". É na distância entre esses dois conceitos que Eleições exerce sua intenção tão política quanto a história que documenta porque essa política em construção na mente de jovens que ainda estão indecisos quanto à faculdade tem também sua face de brincadeira, há em sua essência a aparência. A briga dos cartazes, a necessidade de uma chapa em convidar um integrante popular, a euforia da turma ao testemunhar as diversas declarações de afronte entre os que parecem ser "personagens inimigos".


Toda essa realidade que existe na convergência (e divergência) da forma como os próprios integrantes se enxergam fica ainda mais relevante esteticamente com a constante intervenção de uma dupla de "jornalistas" que fazem uma espécie de cobertura bem-humorada (e sem a intenção de exterioridade do conteúdo). Diante disso, Alice não formata um modelo enérgico para que pareçam jovens secundaristas imitando a "realidade" - são jovens brincando de "seriedade". Manter essa estrutura crua, como foi concebida, de forma quase integral no filme é de uma beleza bem peculiar porque ainda é uma obra ritmada e, sim eu diria isso, emocionante (ela sabe tanto disso que flerta com seu espectador ao causar surpresa na revelação da chapa vencedora).


Como uma estrutura de aparência orgânica, Eleições lança a partir de tudo isso um olhar externo sobre como um grupo de jovens encontra na política (seja na aparência, no conteúdo ou na frustação) uma forma de expor as características de suas próprias existências: a digestão das diferenças num espaço coletivo, o tratamento da falhas e omissões, as contradições da própria manutenção pública que, ao mesmo tempo, investe em educação e repressão. Eleições, afinal, parece não escapar de apenas uma das relações com a "realidade": o mundo aqui fora, naquele 2018 e nesse caótico 2020, é que não parece de verdade. Ou você não acha que Bolsonaro tenha sido um brincadeira de péssimo gosto que foi levada à sério?

★★★★

Direção: Alice Riff

País: São Paulo (SP)

Ano: 2019