• Arthur Gadelha

Distantes: Francis Vale, um cineasta, crítico e amigo

Falecido em dezembro de 2017, o cineasta cearense Francis Vale foi minha maior inspiração de pensamentos sobre o Cinema Brasileiro

Embora nascido no Pará, a maior contribuição de Francis Vale foi ao cinema cearense. Nos bastidores das leis de incentivo à cultura, foi professor da Casa Amarela Eusélio Oliveira (UFC) e coordenador do que viria a ser o Festival Cine Ceará. Nos últimos sete anos de vida, coordenou o Festival de Jericoacoara. Francis foi um cineasta de poucos, mas importantes filmes. Aos 71 anos, concorreu na Mostra Internacional de São Paulo na sessão Novos Diretores com o longa “Trem da Alegria: Arte, Futebol e Ofício” (2017), filme sobre o qual escrevi na Revista Movimento da Associação Cearense de Críticos de Cinema.


O que há de comum entre esse, seu primeiro longa “Dom Fragoso” (2011) e seus oito curtas-metragens é o resgate de histórias que seriam esquecidas sem seu olhar tão apaixonado. Francis amava, acima de tudo, contar histórias. No livro “Cinema Cearense: Alguma Histórias” (2008), contou sua trajetória desde criança no interior de Crateús na sala de cinema adquirida por seu pai, alcançando os eventos que fortaleceram a cultura cinematográfica do Estado do Ceará.


Minha história com Francis foi tão curta quanto divisora de águas. Ainda nos tornaríamos amigos, mas nas gravações do meu primeiro filme “Distante”, ele era apenas o pai cineasta da minha amiga. Num final de semana aleatório, conversamos por horas sobre pedaços da história do cinema brasileiro e esse assunto me fez querer gravar alguma coisa. Escrevi um roteiro rápido com Arthur Catunda pensando no personagem do Francis, um senhor de idade em silêncio à beira do rio – cena em que costumávamos observá-lo. O perguntei sobre a ideia dele mesmo participar, com receio de que não topasse a “brincadeira” e, para minha surpresa, ele se empolgou sugerindo detalhes para que a temporalidade do filme ficasse mais evidente. Foi ele quem sugeriu que essa história acabasse ao som de Dorival Caymmi na canção “A Jangada Voltou Só”, que em seguida foi recriada pelo violão do Diego Silvestre para que pudéssemos usar de forma legal. O filme original, de 2015, pode ser assistido no YouTube do Cineteatro São Luiz Fortaleza. Abaixo, anexo uma versão simplificada que me deu vontade de editar em sua memória.


Para muito além desse filme, muita coisa em mim não existira sem ele. Foi ele quem me mostrou o poder do cinema brasileiro, foi ele quem me fez perceber que a crítica de cinema era um lugar para refletir os tantos Brasis que existem sob essa manta simplista de nação. Francis me chacoalhou. Gostaria de ter vivido pelo menos mais uns 10 anos ao seu lado.