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  • Foto do escritorArthur Gadelha

Curadoria 21º Noia: universidade percebendo a ausência e a violência

ensaio Para uma celebração on-line, cinema universitário não perde sintonia com o mundo

Cena de "Dois no Asfalto" (RJ)

Existem pouco festivais de cinema universitário no Brasil, logo esse país que se recheou tanto de universidade desde que virou o século e entrou uma política de inclusão e diversificação nesses espaços, afastando-se das capitais para repensar a influência acadêmica sobre cidades do interior, promovendo inclusive intercâmbios prolíficos com instituições de ensino de outros países. Quanto ao Noia, que este ano chega a 21ª edição já sem o estranhamento em torno do título, sua presença é sempre louvada pelos realizadores brasileiros pela atenção que o evento entrega a celebração dos experimentos e processos.


Como estudante de duas escolas públicas de cinema - Casa Amarela Eusélio Oliveira (UFC) e Porto Iracema das Artes -, minha história naturalmente se cruzou com o Noia. Em 2015 meu primeiro filme “Distante” estreou na competição cearense do festival, a seguir pelo segundo “Como Chegamos Aqui” que estreou em 2016. Nos anos seguintes fui me afastando da realização audiovisual para abraçar a crítica de cinema, mas nossas histórias continuaram cruzadas - já atuei como jurado, apresentador e, neste ano, estreio como curador.


Na equipe que ficou responsável pela seleção da Mostra Brasileira e Mostra Cearense, estive ao lado de Carol Vieira e Doug de Paula. A missão, cheia de caminhos, era encontrar produções que se atravessassem nas diferenças de um país imenso e permeado por diferentes modos de se ensinar e fazer cinema. Abaixo, compartilho algumas impressões pessoais sobre alguns filmes que passearam pelos três olhares. Acho importante destacar, e curioso da perspectiva crítica, que nem todos os filmes selecionados estavam no meu radar ou defesa, o que é natural e bastante construtivo numa curadoria coletiva. Curar filmes, afinal, não é ter voz sobre eles, mas fugir de si para deixar que sejam ouvidos.


De forma ampla, percebo nesses filmes da Mostra Nacional uma invasão sobre essa coisa tão recorrente da “solitude”, mas na forma como esses personagens conseguem reagir sem que eles sobrem. Do “lado de fora” da cidade, nas ruas, não há muito horizonte, mas o medo, a tensão e o abandono - às vezes, alguns sorrisos.


Madrugada (RS), de Leonardo da Rosa

Dois no Asfalto (RJ) pode até nos lembrar o famoso Fantasma Neon por também trazer a figura do entregador de aplicativo no enfrentamento de uma cidade ilhada que não consegue percebê-lo como vítima de um sistema cruel trabalhista, só que o filme do Daniel Chagas tem uma coisa mais forte que é a explosão. Diante da agressão, um grito, uma resposta que não se importa com a gravidade da tréplica. Ruan Aguiar, autor desse personagem, contou no debate que as pessoas ao redor da gravação se assustaram com a cena, entregando tensão e surpresa àquele gesto. Do estado vizinho, Fique na Luz (SP) também encara uma cidade que escolhe abertamente quem a pode ocupar, onde e quando.


Nas imagens soturnas de Madrugada (RS), de Leonardo da Rosa, pode até parecer que estamos imergindo em algo meramente alegórico ou apenas sensorial sobre essa “experiência da noite”, mas logo percebe-se uma realidade imensa ao redor dos operários que habitam um dia que nunca amanhece. Inevitavelmente, os sentimentos vão parar em Arábia (2017), obra que também pensa o Brasil atravessado por um regime trabalhista insensível.


Silêncio! (BA), de Samuel Andrade Barbosa, imagina esse caminho de fora para dentro, numa distopia onde todos são obrigados a fingir que um monstro não invadiu a cidade e interveio diretamente na forma como a arte pode ser reproduzida. Lembro de Vidas Cinzas (RJ), falso documentário que protesta contra a proibição das cores na capital carioca. Com mais humor e ironia, Cabiluda (PE), de aColleto e Dera Santos dá uma resposta urbana a existência dos chamados “esquerdomachos” na esfera progressista. Em Concha de Água Doce (RS), de Lau Azevedo e João Pires, a cidade – e o mar – como esse recorrente lugar de retorno que só expõe que a “resposta” está no caminho.


As Velas do Monte Castelo (CE), de Lanna Fernandes de Carvalho

Do lado de dentro, as rotas são menos barulhentas. Em As Velas do Monte Castelo (CE), de Lanna Fernandes de Carvalho, as ausências de sua realidade são substituídas pela presença envolvente de seus personagens; a força está nos diálogos, na intimidade com conduz a coexistência dos atores. No debate, Lanna lembrou que submeteu seus familiares a um longo processo de naturalização da câmera sobre seus rostos no contexto isolado da pandemia, incluindo seu irmão pequeno que esteve presente na sessão e não escondeu o orgulho. Mesmo que a fotografia à luz de velas nunca nos deixe esquecer o que está faltando naquela casa, o que a preenche toma todo o espaço.


Em Parece que Foi Ontem (MG), de Silfarley Barbosa Lage e Bruno Heleno, já somos imensamente tomados pela ausência e pela forma como aquela senhora parece esquecida do próprio mundo. Na sua rotina solitária sustentada pelo filme do começo ao fim, somos surpreendidos quando a súbita música desaparece e, de novo o silêncio, emociona. Algo semelhante surge em Através dos Sentidos (RJ), de Gilson Nascimento, estrelado pelo saudoso Milton Gonçalves – vencedor do Troféu Noia de Melhor Ator. Repousando compulsoriamente numa cama, seu personagem vai se libertando do presente ao ser levado a memórias que despertam à partir do som; exercício de montagem e roteiro envolvente apesar das ranhuras.


Nessa projeção da memória no presente também brilham filmes bem distintos: Quinze Primaveras (CE), de Leão Neto, compartilha com Layla Sah um roteiro de invenção sobre o arquivo; Cidade Sempre Nova (RN), de Jefferson Cabral, resolve inventar sobre a invenção ao juntar fragmentos de filmes potiguares para perceber os pedaços fantasiosos dessa capital nordestina. Em Cabocolino (PE), grande vencedor do 21º Noia com Melhor Curta Nacional, Melhor Música e Prêmio da Crítica, João Marcelo Alves investe na leveza com que seu protagonista conta uma história mergulhada em música e natureza, registrando uma representação da cultura popular que nunca deixa de ser memória e ação.

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