• Arthur Gadelha

Há dois anos, Coringa recebia de Lucrécia Martel o prêmio principal de Veneza

Sim, eu ainda penso bastante sobre isso


ENSAIO Em 2019, o 76º Festival Internacional de Cinema de Veneza surpreendeu alguns públicos num prêmio principal sem precedentes

Seguindo minha vida comum, quando menos espero me pego pensando no júri que concedeu o Leão de Ouro ao Coringa (Joker, 2019), do Todd Phillips, diretor da franquia Se Beber Não Case. O júri foi presidido pela argentina Lucrecia Martel, autora de um cinema que vai na contramão da forma e discurso que esse filme elabora - na equipe, estavam ainda Piers Handling, Stacy Martin, Rodrigo Prieto, Mary Harron, Tsukamoto Shinya e Paolo Virzì.


Acho fascinante, penso cada vez mais. Não que os filmes vencedores precisem ter a "cara" dos cinemas que o júri cria, mas esse acontecimento não deixa de soar como antítese mercadológica dessa velha dicotomia cinema de indústria x cinema de autor. Discussão velha, eu sei, mas que inevitavelmente está entre nós e ainda dita muitas das regras do jogo.


Na época vibrei, hoje já não acho um grande filme. Nessa coisa de olhar a sociedade como produtora de violências revanchistas, me parece uma trama abertamente superficial para abraçar tamanha contradição - Joker, afinal, é um vilão, certo? Fico pensando nas conversas desse júri para chegar ao veredito, uma decisão que me intriga com interesse e descrença, espelho dessa condição também velha sobre a temporalidade subjetiva e quase meritocrática das premiações em grandes festivais de cinema.


Quanto ao Coringa, antes do prêmio já soavam muitos burburinhos sobre a dita ousadia de seu tom dramático, especialmente pela escalação de Joaquin Phoenix, um ator tão requisitado em papeis fora de sintonia com o meio em que está inserido, quem sabe por uma simples questão de contraste: em Maria Madalena (2018), Ela (2013), O Mestre (2012) e Amantes (2008), por exemplo, a distância performática de seus personagens é o que dá o tom das sensações mais memoráveis: do carinho solitário à tensão irreparável. Em Veneza, também foram intrigantes as críticas sobre o filme que surgiram em seguida da sua exibição na programação do evento, mas acredito que eram poucos os que botariam a mão no fogo para esse resultado.


Lucrecia Martel no anúncio do filme vencedor de Veneza, em 2019

Nesse dia eu estava acompanhado a premiação num grupo de cinema do Facebook que sempre fervilha durante lançamentos de "filmes de quadrinhos". Num capítulo internamente memorável dessa rinha entre fãs da Marvel e da DC Comics, uma pessoa postou no grupo o anúncio do penúltimo prêmio, de direção para Roy Andersson, celebrando com deboche o fato do filme de Phillips não ter ganhado nada naquele festival "cult" apesar dos ânimos gerados - claro, ele não imaginava que Coringa pudesse realmente vencer o prêmio principal, dando as possibilidades por esgotadas quando o penúltimo fora anunciado. Com a notícia em seguida, esse mesmo membro foi feito de piada pela gafe, algo que dura até hoje por lá. Um acontecimento talvez tão fascinante quanto o próprio prêmio.


Lucrecia, diretora de filmes silenciosamente charmosos sobre a ironia de uma classe média falida de finanças, moral e ética, chegou a ser abordada pela equipe executiva da Marvel para que ela dirigisse Viúva Negra (um filme desastroso, afinal). Mas ela recusou quando soube dos termos do estúdio: colocá-la para guiar as cenas dramáticas, mas deixar que as cenas de ação fossem orquestradas pelos homens: "nós tomamos conta disso". Ela recuou, claro, diante dessa proposta tão imoral que acaba expondo a máquina de aparências desse mercado.


Olhando para essa estrutura de produção, talvez Coringa seja mesmo um filme diferente, concentrado, mais devoto à longa construção dos pensamentos do que na mera exposição da epifania. Partindo das inspirações quadrinistas para justificar o "cânone" a qual pertence, sua história é bem "disfarçada" sob os conflitos solitários numa trama que pode ser generalista sobre a cruel marginalização dos "invisíveis". Nessa equação não feita antes ao personagem, levando as comparações até ao Taxi Driver (1976) do Scorsese, a ideia soou inovadora o suficiente para agradar - e surpreender - públicos bem distintos.


Sequência final de Coringa (2019)

É um filme sisudo, violento, necessariamente urbano. Traz de volta um dos vilões mais cobiçados desse século, marcado especialmente pela desenvoltura do Heath Ledger em 2008 no emblemático Cavaleiro das Trevas. Sob esse manto de expectativa e desconfiança, Phoenix faz um trabalho admirável projetando ele mesmo como parte caótica da cidade, abandonado por todos os sistemas, rendido à inevitável decisão de revolta. Contra a mídia, contra o governo, contra a pobreza, o nascimento de um vilão recheado de propósitos. Venceu o Oscar de ator daquele ano. Mereceu.


No fim das contas não tem nada demais na decisão do júri, e esse texto só existe por uma tola inquietação nunca adormecida dentro de mim. "Os filmes de quadrinho dominam as bilheterias, mas sempre falharam em ganhar prêmios principais, até agora", disse um dos jornalistas sobre o acontecimento - essa conversa sempre foi amarga do lado de cá já que esses mesmos filmes avançam sobre as salas de cinema do país tirando de cartaz os próprios filmes brasileiros, mas aí já é uma conversa longa. Sobre Coringa, mesmo engasgado num gesto até reacionário, ainda acho que ele mereceu toda a atenção, toda a aclamação "sem precedentes" que teve começo lá em setembro quando Lucrecia estava no palco de Veneza e anunciou sua vitória para o choque daquele cara do grupo. Sim, sem qualquer razão, sei que ainda vou pensar muito sobre isso.