• Arthur Gadelha

Cine Ceará: Na pandemia, “Todo Mundo Já Foi Pra Marte” faz do tempo um esboço

CRÍTICA Telmo Carvalho reúne animadores cearenses para nos transportar a uma angústia do passado

Diante dos vários filmes que surgiram em meio a pandemia para enquadrar a solidão e o suspense, essa animação experimental de Telmo Carvalho é de longe uma das propostas mais interessantes. Ao reunir artistas cearenses com diferentes experiências e relações com o processo de animação, o filme costura uma teia de imagens e sons como se fosse ele mesmo um sonho, um pesadelo, que perambula de olhos abertos por uma realidade distorcida. Para todos os artistas aqui presentes, a missão de contar suas existências sensoriais em meio ao isolamento social.


Por ser financiado pela Lei Aldir Blanc, criada para auxiliar o setor cultural brasileiro impactado pela paralisação das atividades, esse expurgo faz ainda mais sentido. Afinal, se não podíamos mais sair de casa, nada mais natural do que responder ao impulso da criação artística desenhando as imagens que não podem ser feitas do lado de fora. Conceitualmente, Todo Mundo Já Foi Pra Marte é engenhoso e, nessas circunstâncias, até bastante inédito – na prática, a ideia se desequilibra pela desconexão entre essas camadas, criando uma sequência de cenas que precisam ser digeridas no caos.


Essa anarquia, aliás, me lembra a elétrica bagunça em De Uma Distância Esquizoide (2021), de Gabriel Silveira, que foi exibido nesta mesma mostra no Cine Ceará do ano passado. Nele, havia uma imersão imagética na cidade para constatar sua estrutura desigual, arranhada, suja e sem solução, narração chamada pela sinopse de “experiência audiovisual extrema”. Longe das extremidades, a animação deste ano caminha mais para uma reconciliação, um abraço – a trilha de Fernando Catatau, claro, ajuda. De repente, essa história tão triste parece caminhar lentamente para o lado de fora – “Parecia tão real...”, pensa alto sua protagonista na última fala do filme.



Curiosamente, o filme tem mesmo essa protagonista: Silvia Moura, autointitulada “artivista”, dançarina fortalezense conhecida pelo meio teatral, e que aqui dedica sua voz, seu corpo, sua casa – e até seus gatos – para fazer parte dessa confissão. Do começo ao fim, ela está lá, com saudade da Terra, do ar, das pessoas e dos bichos, conceito que Telmo posiciona bem ao longo da projeção para lhe dar minimamente um norte.


São tantas as imagens, que seria impossível citá-las categoricamente neste texto em medida de emoção que evocam. As máscaras, as tensões, a vacina e o próprio vírus são imagens que se repetem sob diferentes técnicas de animação, bem como o enquadramento objetivo de pessoas ilhadas – algumas daqui, algumas de Marte.


Independente de como cada um se relacione com essa teia de sensações que já foram todas nossas, de forma positiva ou indiferente, não há como negar que o acervo reunido por esse projeto seja bastante rico, apontando para o potencial imenso que o Ceará tem como um polo de cinema de animação. Só em lembrar isso ao país, Todo Mundo Já Foi Pra Marte já seria um filme incrível – mais que isso, ele nos lembra que nós estávamos, e estamos, todos no mesmo barco. Será que estamos mesmo avançando em direção ao futuro ou, como diz um de seus artistas, tudo não passa de um esboço interminável?

 
 

Este texto integra a Cobertura do 32º Cine Ceará

Direção: Telmo Carvalho

Produção Executiva: Mariana Medina

Montagem: Petrus de Bairros

Composição e Efeitos: J. Cambé

Cor: Petrus Cariry

Voz Original: Silvia Moura

Pesquisa: Carolina Carlini, Levi Magalhães e Thaís Emilia

Direção Musical: Fernando Catatau