• Arthur Gadelha

Cine Ceará: Na euforia do futuro, um olhar sem tempo ou espaço

ENSAIO Sobre a existência do corpo e da mente, filmes que nem começam nem terminam

Na Estrada Sem Fim Há Lampejos de Esplendor, de Liv Costa e Sunny Maia

Quando a personagem de Priscilla Vilela confessa o sentimento de sua aflição incontornável, ela escuta como resposta uma voz calma e ciente que fala sobre o tempo como se fizesse uma grande revelação: “Não tem passado, não tem futuro... só tem agora”. Dirigido por Anália Alencar, Bege Euforia é um filme de atmosfera apaixonante. A trilha mística, o som desenhado pelo próprio ambiente, a luz opaca, embaçada, meio míope, e as atuações imersas, tudo opera na suspensão de um enigma que nunca se revela – e gosta disso.


Mais que atravessado pela anunciada não-linearidade do tempo (se assim se resumisse, esgotaria fácil), essa trama também de freiras e castelos mergulha entre o sonho, a memória e a realidade, como se – assim como o tempo – suas separações fossem uma ilusão. Confiando nessa condição sensorial, o filme ganha uma densidade bastante experimental ao dispor esses lugares e personagens de forma tão minimalista, deixando em nós um interminável estado de atenção, mas também de ausência.


Bege Euforia, de Anália Alencar

Em Na Estrada Sem Fim Há Lampejos de Esplendor, produzido na profícua Escola Vila das Artes, além do tempo e do sonho, o que parece não existir é o espaço. Sem se preocupar com a chegada, “só um caminho infinito...”, como revela sua narração logo no início enquanto vemos uma longa estrada pintada de rosa e sem trajeto.


“Eu sinto que estou indo embora, mas também parece que eu estou voltando pra mim”, diz o personagem quando seu amigo pergunta como deve lhe chamar a partir de então. “Não sendo de ela, tá massa”. Seu corpo, seu gênero e sua identidade estão se transformando – precisa chegar em algum lugar? Esse é o pensamento que mantém os 11 minutos de uma história que, por ser assim tão curta, também não se preocupa em ter um ponto final. Nesse trajeto, os que partem se encontram.


Para os personagens desses filmes aparentemente tão diferentes, em ritmo, luz e som, não há pontos finais, não há porque haver destinos de tempo-espaço, de mundo ou de delírio. A resposta já é estar no caminho. Nada mais natural que essas histórias, portanto, precisem nos abandonar como se tivéssemos parado na metade.

 

Bege Euforia


Na Estrada Sem Fim Há Lampejos de Esplendor

 

Este texto integra a Cobertura do 32º Cine Ceará


Bege Euforia

Direção: Anália Alencar

Produção: Anália Alencar

Roteiro: Anália Alencar

Fotografia: Ana Galizia

Direção de Arte: Tainah Nogueira

Montagem: Carlos Segundo

Música Original: Guilherme Farkas

Som Direto: Vamberto Junior

Finalização de Som: Guilherme Farkas

Elenco: Priscilla Vilela, Alice Carvalho, Mainá Santana


Na Estrada Sem Fim Há Lampejos de Esplendor

Direção: Liv Costa e Sunny Maia

Produção: Caroline Souza

Roteiro: Liv Costa, Sunny Maia

Fotografia: Evye Alves Cavalcante

Direção de Arte: Sam Rosa

Montagem: Liv Costa, Sunny Maia

Música Original: Luana Flores

Som Direto: Pedro Emílio Sá

Finalização de Som: Pedro Emílio Sá

Elenco: Benia Almeida, Liv Costa, Lucas Madi, Lui Fonte