• Arthur Gadelha

Cannes 2019: Boas-vindas ao novo (e velho) Terrence Malick

Diretor texano retorna ao Festival oito anos depois de ter ganho a Palma de Ouro por A Árvore da Vida

Surge um tom de graça ao entrar no perfil do filme A Hidden Life no site do Festival de Cannes e ver Terrence Malick na mesma foto de sempre. É a mesma foto que os festivais pelo mundo usaram dele desde o lançamento de Além da Linha Vermelha em 1999, a mesma que o Oscar exibiu ao anunciar os indicados ao Oscar de Melhor Diretor em 2012, e vale ressaltar que ele não esteve presente em nenhum desses eventos. Por isso foi uma surpresa imensa sua primeira aparição em décadas no festival South by Southwest (SXSW) em 2017, para lançar o longa De Canção em Canção. Foi lá, inclusive, e talvez tenha ido para isso, que anunciou o seu retorno aos filmes mais narrativos, desenhados por um roteiro formal - o que viria a se tornar A Hidden Life, exibido hoje em Cannes.


Desde que ganhou a emocionante Palma de Ouro em Cannes com A Árvore da Vida, em 2011, Terrence Malick abandonou os roteiros que sempre visitavam o passado para buscar entender a "vida moderna". É aí que vive a inconsistência desse seu novo cinema, porque sua criação determina uma sociedade fútil, desconexa, nômade e profundamente vazia. A coleção dos filmes Amor Pleno (2012), Cavaleiro de Copas (2016) e De Cancão em Canção (2017) formam uma experiência anêmica que, seguindo esse propósito explícito, quer registrar (e possivelmente repensar) os vazios da “modernidade”, entrando na praia da liquidez de Bauman. Aliás, é justo que haja mérito nessa abordagem por ser tão crítica e aversa à paz entre homem-natureza de seus outros filmes, mas nada disso garante uma boa experiência ao público - veja só, talvez esses filmes "chatos" sejam exatamente sobre seu espectador moderno. Mas deixemos esse debate filosófico para outro momento.


Por esse passado de trauma e glória (afinal, todos antes de A Árvore da Vida são interessantes), muito se especulou sobre como seria o seu filme que retornaria "ao roteiro formal", o que acabou significando um retorno muito aguardado do diretor texano ao grandioso Festival de Cannes. O que deve haver de novo? Terrence Malick está de volta ou apenas estendeu o vazio dos dias de hoje para a Alemanha dos anos 1940? A Hidden Life conta a história real de Franz Jägerstätter, alemão que se recusou a lutar ao lado nazista na Segunda Guerra Mundial.


Após a exibição em Cannes, a reação da imprensa mostrou um incômodo considerável, apesar de destacar a importância do retorno da sua brilhante narrativa de espiritualidade.


"Nos últimos anos, Malick pode ter parecido sem contato, respondendo às questões que mais o interessam do que ao público em geral. Mas se ele estava ou não se referindo especificamente aos dias de hoje, seus demagogos, e o modo como certos evangélicos mais uma vez venderam seus valores centrais para vantagem política, “A Hidden Life” parece incrivelmente relevante ao colocar esse problema na luz."

Peter Debruge (Variety)


"É um épico íntimo sobre a imensa força necessária para a resistência, e a coragem que leva para alguém se apegar à sua virtude durante uma crise de fé, e em um mundo que talvez nunca os recompense por isso."

David Ehrlich (IndieWire)


"Franz se torna um objetor de consciência para a guerra e o serviço militar quando sabe que isso é uma ofensa capital, e ainda assim Malick, com três horas em suas mãos, nunca lhe dá a oportunidade de explicar completamente seu pensamento."

Todd McCarthy (The Hollywood Repórter)


"Um sombrio épico de guerra espiritual que surge para reivindicar seu lugar entre os mais sentidos do diretor. Os filmes intervenientes podem ter incutido a dúvida em todos, mas o devoto mais incansável dos fiéis de Malick, mas isso parece como voltar a uma catedral que acolhe a todos: ou alguém, pelo menos, ainda capaz de acreditar..." Tim Robey (The Telegraph) "O filme é parte história de amor, parte tragédia e parte meditação sobre fé e consciência - e é totalmente Malick de uma forma que está mais próxima de “O Novo Mundo” e “A Árvore da Vida” do que seus filmes desde então." Steve Pond (The Wrap) "Os mistérios de Deus há muito enraizaram Terrence Malick. Em A Hidden Life , ele e Franz buscam a sabedoria divina, mesmo que nenhuma resposta celestial pareça iminente." Tim Grierson (ScreenDaily)