• Arthur Gadelha

Bem-vindos de Novo

Cinema-reconciliação, de novo


CRÍTICA 25ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES Provocando o próprio cinema como mediador das angústias, Marcos Yoshi não deixa a intimidade esgotar sua história

Desde que ferramentas e processos digitais se multiplicaram na feitura do cinema brasileiro, somado ao crescimento exponencial das faculdades e escolas públicas de cinema, tornou-se comum esse “cinema-umbigo”, termo bem aleatório que não utilizo aqui como forma de desprezá-lo. Cineastas que, testando suas visões artísticas, filmam a si próprios e seus arquivos para propor um exercício de alteridade. Em filmes como Abissal (2016) e O Amigo do Meu Tio (2021), por exemplo, histórias familiares que precisam acessar o campo emocional da “reconciliação” para justificar o embarque – veja só, não é a imagem por sua “facilidade”, mas por uma proposta de resgate. Bem-vindos de Novo, longa de estreia do Marcos Yoshi, entra nesse campo de forma explícita – sendo logo esta, tão espinhosa, sua qualidade mais intrigante.


Longe dos pais há 13 anos, quando eles viajaram ao Japão para conseguirem manter a família, Yoshi não sabe quais ferramentas comuns ele pode usar para reestabelecer um vínculo além sangue – afinal, aquele pai e aquela mãe, tanto tempo depois, podem parecer mais hóspedes carinhosos do que qualquer outra definição fixa. Revelando cedo na trama como intenção prática, o cineasta vai se instalando na missão de usar a estrutura burocrática do cinema para proporcionar essa aproximação; imagina-se que essa pose de câmera e som apontados crie certa obrigação de satisfação, de fala, explicação, mais do que ele simplesmente posto de frente como um filho atrás de respostas cujas perguntas nem ele mesmo sabe.


É um curioso ponto de partida pois o diretor aproveita que também não conhecemos essas pessoas para construir uma cumplicidade bem resolvida entre nós e a “invasão” nas poucas memórias e gestos surpreendentemente francos do presente. É revelador, por exemplo, que os pais estejam tão conscientes da ausência que cavaram nos filhos ao ponto de anunciar essa sensação didaticamente, e de compreenderem o próprio projeto de uma câmera como mediadora do processo. Eles percebem quando erram algo e pedem para regravar, naturalmente topam refazer passos para que o enquadro no plano seja certeiro – uma ficção compartilhada quase que à espelho da inserção que André Novais Oliveira fez com seus pais e que chacoalhou tanto nosso cinema.


No fim das contas, a surpresa em torno de Bem-vindos de Novo é que não é só Marcos que está buscando respostas na ficção, mas também as irmãs e os pais num organismo que gira em torno do mesmo objetivo – como a avó de Arthur Leite que depois de tantos anos escondendo a verdade, resolve revelá-la quando sabe que ela está ao centro de Abissal (titulo dado em metáfora ao lugar de segredos que o filme-neto finalmente acessa). Mais que um exercício ególatra de condicionar emoções para render a audiência pela empatia fabricada, a ideia desse filme vai se tornando cada vez mais robusta à medida em que se firma sem receios nesse campo de intermédio.


Esse diálogo com as imagens ganha uma camada quase premonitória quando descobrimos que, quando distantes, os pais se comunicavam com os filhos via vídeo disponibilizado pela equipe brasileira, ato que a empresa emulava como prova de sua “compaixão”. O vídeo é falso, montado, curto, com direito até a trilha sonora. Era o que tinham. E é o que têm. Quando voltam, mesmo cara a cara, ainda há uma câmera entre eles.


Da parte do diretor, há um olhar amargurado, mas continuamente conformado, contradição que parece movê-lo adiante atrás de descobertas sobre aquelas figuras carinhosas e estranhas. Há por isso um julgamento silencioso, e quem sabe nem tão intencional, acontecendo por debaixo dessas cenas cotidianas em que ele os observa, do café da manhã e das compras de mercado às suas rotinas de trabalho no Brasil. Além desse retrato casual, Yoshi também mescla fotos e vídeos antigos como forma de criar uma colisão entre as aparências e falências, mas sem precisar causar epifanias.


Consciente do contexto em que permite pais deixarem seus filhos por mais de uma década, o filme também se deixa ser um documento emocional das contradições socioeconômicas do projeto neoliberal que sempre esteve em destaque num mundo que se firmou cegamente devoto do “progresso global” antes mesmo de ter esse nome no século passado. Para além das limitações que também são bastante brasileiras, há a constante crise da imigração como ferramenta simplificada de mão-de-obra com os dekasseguis (pessoas com ascendência japonesa que migram para trabalhar no país). A engrenagem em que seus pais continuam engatados, porém, nunca é apresentada frontalmente, mas através de relatos que chegam à tela quase como confissões.


Nesse trajeto, Bem-vindos de Novo consegue ser ao mesmo tempo íntimo e coletivo, comovente, nunca deixando que esse ato de reconciliação perca a honestidade de um destino tão incerto. Na contramão de um projeto esgotado e previsível, o filme vai caminhando por sentimentos cada vez mais estranhos, e por isso causando sensações desoladoras tanto para um espectador ciente desses Brasis quanto àquele que está completamente alheio.

 
 

Direção e Roteiro: Marcos Yoshi

Produção executiva: Heitor Franulovic, Paulo Serpa

Montagem: Yuri Amaral

Fotografia: Gabriel Barrella

Trilha sonora: Julia Teles

Mixagem: Eric Ribeiro Christani

Som direto: Chris Matos

Edição de som: Caio Gox

Essa crítica faz parte da cobertura da

25ª Mostra de Cinema de Tiradentes