• Arthur Gadelha

27ª É Tudo Verdade larga de dentro com “A História do Olhar”

ENSAIO Tradicional festival de documentários estreou sua programação com um documentário que, na intimidade, tenta se sobrepor às experiências enclausuradas

Sobre a estreia do 27ª É Tudo Verdade com A História do Olhar (2021), de Mark Cousins, paira um certo deja vú, lembrando a abertura do 10ª Olhar de Cinema com O Dia da Posse, de Allan Ribeiro. O paralelo difere nos dispositivos, mas se aproxima no "desafio" de se fazer cinema quando as possibilidade de coisas para se olhar, e contar, estão limitadas. No brasileiro, um casal que sobrevive à quarentena instalada no Brasil pela pandemia da Covid-19, e no irlandês, uma tensão mais íntima sobre o próprio intuito de olhar, gravar e lembrar das coisas. Da sua cama, prestes a fazer uma delicada cirurgia nos olhos, Cousins reinterpreta sua natureza cineasta: "É como se eu estivesse puxando de trás da cabeça, como se estivesse projetando", comenta de olhos fechados sobre o que enxerga na escuridão.


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Na mesma medida em que é modesto, esse gesto do diretor e da curadoria soa complexo diante de tudo o que está acontecendo no mundo. De guerras e suas narrativas hegemônicas na mídia tradicional a crise políticas e empatias seletivas, o culto à ferramenta do "olhar", para onde, de que forma, o quê e como registrá-lo, se torna uma discussão infinita. A jornada de Cousins não diz nada disso diretamente e o mundo, em si, não é um conflito tão urgente, mas suas memórias e a forma como ele mesmo se enxerga nos leva a pensamentos imprevisíveis.


Claro, tudo poderia soar muito engasgado, egocêntrico ou repetitivo - e até o é em certa medida, inevitavelmente -, mas a cadência na condução do seu pensamento causa uma impressão honesta à partir de sua própria solidão e das imagens que busca em si e em filmes alheios. "Será que eu já toque o rosto da minha mãe?", pergunta enquanto vemos o prólogo de Persona (1966), do Bergman. O "olho", nas suas mãos, é observado como uma ferramenta, assim como os celulares e as próprias câmeras, mas com a irreverência do instante - afinal, o que vemos não se guarda, depois que acontece, já se foi, vira a ficção da memória. A foto da avó morta, perdida no telefone que apagou, é a extensão desse paralelo improvável: os olhos que vagam e os que gravam, todos têm um fim.


Num exercício narrativo de auto exibição, A História do Olhar reconhece que a limitação faz dele um projeto de descobertas mais pessoais do que qualquer "projeção" externa, mas nunca deixa de ser uma viagem curiosa. A tensão em torno da literal cura da visão, que já seria empolgante em qualquer contexto, torna-se ainda mais alegórica estando na abertura de um festival como esse, tão disposto a nos revelar pessoas, lugares e suas histórias. Bela largada.