• Arthur Gadelha

A Colônia

A lei é que é fora de nós


CRÍTICA 25ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES Para nos contar sobre moradia e civilidade, documentário tenta cruzar com a ficção para se aproximar de seus personagens

Antes mesmo do filme engatar, ali na sequência em que somos apresentados aos personagens sob o ritmo do Payaço Abu, me vi pensando na surpresa que é esse filme, temática e narrativamente, para a filmografia da dupla de diretores que o comanda. Virgínia Pinho e Mozart Freire chegaram até aqui com filmes tão distantes do que assistimos em A Colônia, que parece mesmo justo que essa parceria busque algo no meio de campo.


Fugindo dos módulos educacionais e das abordagens jornalísticas, o roteiro assinado pela dupla com colaboração de Miqueias Mesquita quer contar a história do bairro Antônio Justa, no Maracanaú (CE), de modo a pulsar mais as emoções daqueles que moram ali, e que por isso têm suas próprias vidas indissociáveis àquele espaço, do que propriamente traçar um panorama elucidativo dos rumos que aquele projeto tomou ao longo dos anos. Nos anos 1940, o bairro surgiu como uma colônia de reclusão para os diagnosticados com hanseníase, confinando pessoas de todas as partes do Ceará e até mesmo de outros estados.



Em pouco mais de uma hora, o filme se dispõe a fazer uma espécie de passeio pela região para escutar depoimentos sobre essas histórias cruzadas, mas também investindo numa camada de ficção para tentar respirar no tempo contemporâneo, já que não tem em mãos grande arquivo sobre o passado. Apesar de posta a intenção, a colisão entre esses pontos de vista acaba expondo até demais suas distâncias, ficando a sensação de que por isso ambas as partes são enfraquecidas – tanto as conversas ensaiadas quanto os relatos muito picotados.


Ao mesmo tempo, essa também parece ser uma limitação previsível, especialmente diante de uma proposta que busca imergir tanto nos afetos e frustrações quanto nos desafios e negligências vividos até hoje pelo espaço e por quem o habita. Ao fim da exibição, quando os personagens retornam em planos centralizados, retoma-se a memória do carinho do que representam juntos. Mesmo de forma simplificada, sem atritos ou detalhes, A Colônia cumpre sua missão de nos fazer descobrir – ou lembrar – de uma história que só espelha o quanto os relatos desse Brasil vira e mexe parecem os mesmos, um país recheado de interpretações propositalmente más.


“Eles pensam que eu não sei

negam a minha voz

Nos chamam de fora-da-lei,

mas eu acho que a lei é que é fora de nós.

Pensam que eu não sei...”

 
 

Direção: Mozart Freire e Virginia Pinho

Roteiro: Mozart Freire, Virginia Pinho e Miqueias Mesquita

Produção Executiva: Barbara Cariry

Direção de Produção: Priscila Lima

Montagem: Abdiel Anselmo

Fotografia: Daniel Pustowka

Direção de Arte: Ton Martins

Trilha Sonora: João Victor Barroso

Mixagem: Érico Paiva

Som direto: Yures Queiroz Viana

Edição de som: Érico Paiva

País: Brasil (CE)

Ano de Lançamento: 2022

Essa crítica faz parte da cobertura da

25ª Mostra de Cinema de Tiradentes