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  • Foto do escritorArthur Gadelha

28º Cine PE: ‘Grande Sertão’ explode em estreia com política e música

Nesta quinta-feira, 6, a 28ª edição do Cine PE abriu com homenagens, música e um irreverente mergulho na desigualdade brasileira

Por mais que a comunicação visual do 28º Cine PE cause estranheza por ser muito reduzida, com menção ampla à composição por meio de notas musicais, o título-tema desta edição – Ver, Ouvir, Sentir – fez todo sentido na noite de estreia: a homenageada da noite, a apresentação orquestral e o próprio filme que encerrou a sessão.

 

Com muitos trabalhos em televisão, teatro e cinema, Tânia Alves tem também larga carreira na música – o momento se tornou ainda mais poético porque ela recebeu o seu troféu de homenagem no palco do Teatro do Parque na frente de uma banda posta para apresentar-se logo mais. A emoção foi escanteada em seguida porque João Campos, prefeito do Recife, e Raquel Lyra, governadora de Pernambuco, protagonizaram o momento com seu duelo de prestígio político enquanto deveriam estar honrando Tânia, logo ao lado com o grande Maestro Spok. Que tivessem uma fala antes ou depois. Passado esse momento, a celebração seguiu seu curso com um belo discurso em que Tânia rememorou sua história com a cultura pernambucana.

 

Em seguida, o regente Dierson Torres guiou um concerto sinfônico para prestar homenagem a músicas e filmes que marcaram a cultura brasileira em conjunto. “Bicho de Sete Cabeças”, “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer” e “Tempo Perdido”, claro, envolveram a plateia num grande coro sonoro. Se a rima já estava em completa sintonia até ali, a grande explosão ainda estava por vir com “Grande Sertão”, filme de Guel Arraes que também estava estreando comercialmente no mesmo dia.

 

Dado continuidade a uma percepção elétrica do diretor que inventa seu mundo próprio no delírio como grande deslumbre cênico da “realidade”, o filme leva essa condição à margem do seu limite. Do começo ao fim, suspende a realidade para mergulhar numa fábula atualizada – e urbanizada – de “Grande Sertão: Veredas”, romance gravitacional de João Guimarães Rosa. A adaptação é bastante livre, claro, e o que mais impressiona é o jeito com que o autor cria imagens na inspiração do experimentalismo literário que a obra original já é, fazendo com que a narrativa encontre suas “não-linearidades” na montagem e na condução do que “existe”, abraçando o caos barulhento de uma sociedade completamente recolhida da paz.

 

É fascinante que Guel consiga fugir do teatro filmado, lugar-comum de narrativas que respeitam as declamações de textos nada orais, e o faz com a certeza da linguagem do cinema, sem vergonha mesmo. Com exceção do relato que Riobaldo dá sentado numa cadeira de entrevista jornalística, todo o resto é como uma expansão desse “sentimento de teatro”, onde o palco se estende por todo o quadro sem nunca parecer que estamos aterrissando no mundo. “Grande Sertão” quer ser um delírio, a todo instante, gritando para construir de forma mais fácil sua urgência, e sempre recheado de muita música para dar o tom da tensão interminável.

 

Entre a pose e o ato, todos os atores e atrizes encaram a missão de estar presente nesse universo - Caio Blat e Mariana Nunes, em especial, dominam. A cena em que Otacília grita correndo após ter sua filha assassinada é de uma força imensa que depende muito da sua compreensão do que há de surreal no grafismo dessa história. É uma escolha estética tão bem distribuída entre todos os elementos, da cenografia à decupagem, que me parece um projeto bastante ciente de seus extremos. É fácil entender quem ama. É fácil entender quem odeia.

 

Quando chegamos no discurso dessas imagens e sons, porém, é que começamos a encontrar suas grandes rupturas. Na digestão de como a trama viaja do sertão nordestino para o centro urbano do Sudeste, Guel cria um paralelo muito cansado pelas repetições rasas desse olhar para como a desigualdade age em torno das populações mais vulneráveis. Na tela do seu filme, o “Grande Sertão” é uma periferia literalmente aprisionada e por isso condenada aos julgamentos de forças violentas.

 

Quando subiu ao palco com sua equipe para apresentar o filme antes da sessão, Guel criou uma rima indigesta com o discurso político que antes invadiu o espaço de Tânia, ao se assumir bastante descrente pela forma com que a política encarava os problemas sociais do Brasil, criticando a abordagem arrogante da “direita” e a parcimônia da “esquerda” com seus projetos “a longo prazo”. Em alto grau, isto está no filme.

 

Estado e “bandidagem” oferecem ameaças distintas para a população daquela região, e então entramos no mar de referências já bastante explorados pela mídia hegemônica para fazer da violência um grande entretenimento caseiro. De Tropa de Elite à tantos filmes e séries sobre confrontos policiais na periferia, com derramamento de sangue inocente, o filme estaciona nessa mesma condição para “respeitar” os rumos que seus personagens dúbios têm na trama original, mesmo que ela esteja tão distante no tempo.

 

“Tiradentes era bandido?”, pergunta a garota incrédula com o conceito que ela acreditava ter resolvido na sua percepção do mundo. É uma conversa interessante, mas que fica por aí. Enquanto se torna tão gráfico quanto algo que a Globo faria para estetizar essa violência, “Grande Sertão” dá voltas e voltas, sem saída. Diante da estrutura dessa injustiça social que condena diretamente o povo negro à morte súbita, o olhar do filme tem pouca ranhura ou profundidade para além do estabelecido, assim como a forma com que a personagem de Luisa Arraes ganha o “subtexto queer” do texto original.

 

De toda forma, é um filme que tem sua própria energia para suportar inclusive essa interpretação de que seu exagero deixa muita coisa passar sem barulho. Em dado momento, seu confronto visceral com facas, saltos milimetricamente coreografados e muito ronco de motor levou a plateia para o universo Mad Max, do George Miller, que inclusive tem capítulo novo competindo agora mesmo no circuito. Esse paralelo, em si, parece tão absurdo, que a presença de “Grande Sertão” nos cinemas brasileiros já parece justificar integralmente o calor da sua estranha existência.

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