• Arthur Gadelha

Um Lugar ao Sol #03: encarando as contradições

ENSAIO Na segunda semana de exibição, a independência mínima dos núcleos causa uma curiosa tensão sobre novos rumos da história

Parece cada vez mais certo que, no futuro, Amor de Mãe (2019) e Um Lugar ao Sol (2021), de Manuela Dias e Lícia Manzo, respectivamente, serão percebidas sobre uma ótica "gêmea" – primeiro porque ambas são tramas que se assumem urbanas pelo interesse das tragédias anunciadas pela ordem dos acontecimentos estruturais: então a desigualdade social, por exemplo, circunda os objetivos centrais, apesar de nunca ganhar o protagonismo efetivo por um conservadorismo clássico à faixa de horário; e segundo porque a forma como suas tramas se permitem ao cruzamento das estéticas de novela, filme e série soa como uma causa-consequência admirável e relativamente nova na comparação entre obras distintas.


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Começo nesse comentário pela belíssima cena que encerra a segunda semana de Um Lugar ao Sol, com toda a tensão em Lara por achar estar sendo observada por um fantasma justamente no dia do seu casamento com um amor antigo. Ela está desconcertada. Além da atuação cada vez mais delicada de Andreia Horta, ela surge ao centro de uma escuridão (na imagem acima) enquanto caminha em direção ao altar – do outro lado, Christian revive a contradição que se tornou sua vida, cruzando os significados daquele dia para ele e Lara, seu amor antigo. Essa imagem, alinhada com o texto simples de Lícia, é um exemplo incrível de como apresentar essa dualidade sem render-se à imagens cafonas.


Esse desfecho, espertamente levado ao gancho de sábado, revigora até a água com açúcar que estava o núcleo de Christian e Bárbara, que foi ficando desinteressante à medida em que foi se tornando óbvio. Parte dessa sensação morna pode ser justificada na inexplicável exclusão do longo período em que Christian se entranhou no mundo dos ricos, pulando meses no futuro para que a trama avançasse. Apesar de virmos ele não ter escolha, não o vimos virar Renato - ele só surgiu. Ao mesmo tempo que isso, contraditoriamente, torna a atuação de Cauã Reymond mais interessante pelo desafio, danifica a relação explorada às migalhas com Ravi, personagem que avança em direção contrária à preocupação que explicitei no texto anterior. Ravi, felizmente, ganha vida própria.


Juan Paiva como Ravi

Apesar das más impressões gerais sobre a inserção brusca de Joy, pichadora que se relaciona com Ravi, gosto que esse núcleo seja usado como contraponto ao rumos ensossos de Christian. No caminho para encontrar Joy, outra cena se destaca: Ravi literalmente flutua sob o túnel de grafites. Claro, não há nada sutil no impedimento do aborto, no diálogo entre as famílias e na dualidade entre o nascimento de Francisco e a morte de Yuri, mas parece o tipo de preço a se pagar numa trama que caminha na velocidade da luz.


Nem tudo, porém, é bruto. Alternando Rio de Janeiro, Londres e Minas Gerais, a transição entre os núcleos ao longo da semana foi se desenhando de forma natural apesar dos abismos que existem entre os ambientes, tensões e personagens, inclusive nas cores: a trama “feliz” de Lara e Noca ganham cores quentes, a angústia de Christian e Bárbara permanece num azul friíssimo e as descobertas de Ravi explodem em cores. Embora existam distinções, a novela não soa como uma costura alienígena – muito pelo texto da Lícia que tem seus momentos de sutileza, mas também pelas decisões da fotografia, direção e montagem (importante destacar) que deixam claro um trabalho minucioso que não contou com o acaso.


Em destaque especial, a trilha musical que chama atenção para si nesse pedaço da história, situação que já vinha ali desde o começo com uma versão emocionante de Creep, na voz quieta de Bebel Gilberto. Na semana, as cenas foram banhadas de Emicida e Gilberto Gil na jornada de Ravi a Rita Lee cantando em francês na deliciosa Change, lançada esse ano, para dar o tom de luxo e perspicácia da personagem de Rebeca.


Ju Colombo como Dalva

Para além dessas situações, outros conflitos ganharam camadas: o núcleo da escola é incansável de tamanha ternura em Noca e Dalva, personagem vivida por Ju Colombo que ganha destaque na conversa sobre o direito ao ensino. É simples e objetivo, mas funciona muito bem como um respiro sincero dentro da trama. Do lado pouco interessante do mundo rico, brota o incômodo de Rebeca (Andréa Beltrão), que encara a forma como seu corpo envelhece e é julgado pelo olhar masculino do mundo real e da ficção da moda – as promessas de envolvimento com o personagem de Gabriel Leone, com direito a um devaneio charmoso à lá Amanhecer – Parte 2, só mostra que haverá dedicação nessa “redescoberta”. Diante de tantos rumos sugeridos e com um desfecho tão revigorante quanto ao do último sábado, eu não poderia estar mais entusiasmado com essa reviravolta que a história de Lícia Manzo deu em si mesma para permanecer interessante.