• Arthur Gadelha

Um Lugar ao Sol #02: Primeira semana dá as caras ao perigo

ENSAIO Enfrentando uma programação conturbada de horários devido à exibição de jogos de futebol, Um Lugar ao Sol parece ter finalmente engatado

Ao fim da sua semana de estreia, muita coisa mudou daquelas primeiras más impressões quanto a inconsistência dessa “nova novela” da Globo, apresentada com um texto engessado, roteiro redutivo e com a interpretação óbvia de Cauã Reymond. Apesar disso, bons sinais foram pulsando à partir do terceiro episódio que conseguiu construir cenas e situações até charmosas de cenografia e especialmente de direção. Entraram peças raras como Marieta Severo e Andréa Beltrão, então essa história intimista começou a fazer mais sentido.


Encarando o risco

O encontro de Christian e Renato é, além da performance, um assombro de criatividade na direção de cena, levando a câmera para movimentos ainda não ousados na televisão diante do famoso truque de “gêmeos no quadro”. A própria revelação, em si, acontece de forma visual: Christian se põe à frente do irmão, um choque tão envolvente que, infelizmente, clamou o conforto de uma elipse quebrada pela chamada dos comerciais. Faltou coragem para continuar a cena dali mesmo. Mas tudo bem, sigamos.


Por outro lado, a dramaturgia evidencia uma fragilidade quando põe dois Cauãs para sustentarem suas convivências, dando as caras à fragilidade da composição do ator para personagens tão distintos. A partir de então, tudo vale pelo truque: os Cauãs se sobrepõem, se tocam, se olham, tudo sem deixar passar nenhum defeito na montagem – que inclusive se dá ao luxo até de uma sequência contemplativa com luzes à lá Verdades Secretas 2.


O Destino

“O vilão é a vida”, nos enganou Manuela Dias sobre os rumos de Amor de Mãe (2019), deturpados pela equipe dramatúrgica da Globo após o formato “realista” ser mal-recebido pelo público. Nessas primeiras histórias cruzadas de Um Lugar ao Sol, parece que Lícia está interessada nessa perspectiva do desastre posto pela simples ordem de como as coisas se movem nessa sociedade violenta na concentração explícita de riquezas – e a repetição do Rio de Janeiro como cenário é tão óbvia quanto crucial para isso.


Virando piada nas redes sociais, a sequência de azares vivida por Christian na busca pelo irmão meio que vira de cabeça para baixo quando o tão anunciado plot acontece: o rico morre como se fosse o pobre. Nesse instante, claramente chacoalhante na estrutura da história, até mesmo o roteiro nos conduz algumas sensações que sustentam a curiosidade. Porque mais que meramente uma decisão arbitrária e individual, Christian é levado para a vida de Renato – e ele simplesmente não consegue reagir.


O momento mais importante dessa virada é quando Bárbara põe Christian no carro e expurga sua angústia sem perceber que os irmãos trocaram. Nessa cena, que provavelmente seja a primeira realmente boa na equação de texto e atuação, Alinne Moraes brilha numa entrega efusiva que trabalha bem com as ironias de suas falas (Pensei que você tivesse morrido... Pense bem se é isso mesmo que você quer...) no rumo do destino de decisão do personagem que vive um luto conturbado.


O Outro Lado

Justiça seja feita, também me parece impossível comentar essa primeira semana sem destacar o trabalho que Andréia Horta tem feito com sua personagem Lara, mesmo com o curto tempo de tela e dos acontecimentos que enfrenta precisarem ser tão instantâneos e passageiros. Mas ela se sai super bem. Sua chegada na execução de Renato (numa câmera-drone) e sua reação ao fato, são momentos bastante reais, e sua presença é levada ao extremo quando surge em tela a enigmática Marieta Severo, que vive Noca, sua avó. Entrando tão quieta quanto imensa, a inserção de Marieta é genial por preencher de ternura e cuidado uma história tão danificada pelos acasos trágicos clássicos ao folhetim.



Preenchendo essa dupla, Juan Paiva continua sendo também um dos destaques, tanto na sua interpretação de Ravi quanto no texto que lhe é dado. Elo entre a realidade e farsa de Christian, o personagem oscila bem na angústia desses mundos, principalmente por enfrentar uma mudança radical na relação com o irmão. "Aquele cara bacana que você conheceu... ele tá morto", anuncia para Lara, afinando a constante intenção de Lícia na construção de falas dúbias que apresentam camadas bem interessantes dos sentimentos divididos.


Caminhos

No caminho de Christian para tomar a vida do irmão, há uma construção interessante dessa dúvida. Afinal, quando ele se deixa ser beijado por Bárbara, reforçando o ato em seguida, pairam dúvidas empolgantes sobre o caráter desse personagem apresentado anteriormente com tanta moral e ética para distanciá-lo do gêmeo rico. É justamente essa contradição, aliás, que parece finalmente encaixar Cauã Reymond nas complexidades de seu personagem restante – a cena da conversa franca com Ravi é um primeiro bom exemplo dessa virada de mesa, quando o amontoado complexo de interesses, consequências, fatalidades e ambições se sobrepõem numa só pessoa.


Ao mesmo tempo, essa situação pode virar uma armadilha. Quando Ravi se torna motorista de “Renato”, e Christian começa a se afirmar entregue aos mecanismos hierárquicos de poder, a forma como enxergaremos esse personagem adiante pode mudar a regra do jogo. “Você faz o que eu tô mandando, você é meu empregado”, grita. Se Christian não for propriamente efetivado como esse antagonista, mas sempre relativizado pela emoção de sua dúvida, o espaço de construção do Ravi se perderá e a trama pode acabar sendo tão racista quanto se pretende ser o contrário. Fica a expectativa para que na sua trajetória, o personagem Ravi tenha pulso para além dessa chantagem emocional, e que a chantagem se anuncie como tal.


A dúvida é ser o texto de Manzo terá a coragem de sustentar essa contradição e, quem sabe, transformar Christian nesse homem completamente obcecado pela própria mentira ao ponto de ultrapassar barreiras e se desfazer da humildade. Seria um caminho nada óbvio diante das narrativas meritocráticas já naturalmente promovidas pela emissora na sua grade de programação, de Luciano Huck ao Fantástico. Quem sabe na ficção isso não ganhe rumos mais complexos? Cenas dos próximos capítulos.