Sargento Getúlio e os 'Outros Cinemas'
Clássico do cratense Hermanno Penna abriu a 10ª Mostra Outros Cinemas, em Fortaleza

Na última quinta-feira, 15, a Mostra Outros Cinemas voltou ao Cinema do Dragão após um hiato de quase 10 anos. O evento retorna sob a direção de Bárbara Cariry seguindo a tradição do foco no curta-metragem e na produção autoral. Além dos filmes contemporâneos ocupando a programação, a abertura e o encerramento da Mostra aconteceram com exibições de clássicos dos anos 1980, simbólicos para a formação de um cinema nordestino ocupante do circuito.
É difícil precisar a quantidade de mudanças no país que se deram no momento entre a última edição da mostra e a atual. Entre as trocas de liderança que reformularam, mais de uma vez, as diretrizes que estruturam nossa política nacional e também nossas organizações internas de estado. É irônico e, sobretudo, certeiro que o filme escolhido para abrir a Mostra tenha sido justamente Sargento Getúlio (1983). Uma expressão exagerada do baque da mudança, realizada nos últimos respiros da Ditadura Militar e no princípio da abertura política. Filme tomado do universo interior complexo do brasileiro do passado, que se vê em oposição ao movimento da modernização, mas que não enxerga a contradição presente na quantidade de princípios que o constituem ao mesmo tempo.
Sargento Getúlio chegou primeiramente à Fortaleza pelo Panorama do Cinema Cearense, iniciativa independente de realizadores locais em colaboração com Eusélio Oliveira e a Casa Amarela, nos 1980, de exibição de filmes de cineastas nordestinos, sobretudo cearenses. O diretor, Hermano Penna, era o retirante do Crato que, entre idas e vindas por outros estados, chegou a São Paulo e lá construiu não só sua carreira, mas também uma referência para uma série de realizadores que testemunhavam os primeiros passos do Ceará em direção a uma profissionalização em cinema estruturada. Se até hoje não paramos de recair sobre esse assunto, algo de circular na nossa trajetória de exibição continua se mostrando e talvez nunca pare.
No filme, um sargento (Lima Duarte), jagunço ignorante e fiel a seus princípios, têm a missão de levar um prisioneiro político (Fernando Bezerra) de Paulo Afonso a Aracaju. No meio do caminho, uma mudança no panorama político ordena que a missão seja abandonada e o prisioneiro, solto. Getúlio, no entanto, não aceita essa virada e se compromete a cumprir seu objetivo original. “Eu não posso sumir de mim [...] Quem some é os outro. A gente, nunca.” responde Getúlio ao Padre (Flávio Porto) quando este o pergunta por que não sumir para escapar das punições do Governo, pelos crimes que cometeu.
Getúlio pode até reconhecer que o tempo passa e as coisas mudam, mas ele não. Ele seria certa coisa de imanente, original e pura. Defender sua honra, cortando a cabeça de um tenente que o insultou, pode ser uma lei da selva que não exatamente corresponda às ordens do Estado, mas é a lei que melhor corresponde à sua própria justiça. Ele vive na corda bamba entre a servidão cega ao seu regime e a fidelidade a sua moral individual. Um selvagem que arrasta a própria corrente que o algema, ao longo de uma terra livre, da qual se pode seguir para todas as direções, mas que ele andará apenas para alcançar Aracaju.

Se Getúlio se vê, de certa forma, como alguém absoluto, é também assim que o filme vê Lima Duarte. Ele é mais que um protagonista ou uma estrela. Ele é algo como uma escultura ou um quadro vivo, alguém que a câmera quase nunca tirará de foco e quase sempre acompanhará ansiosa e trôpega, tal qual Getúlio em seus passos e seus ideais. O corpo de Lima é testado sobre o reflexo de uma variedade grande de luzes, seja a natural e exagerada do Sol quente que incide em Sergipe, seja a artificial e também exagerada luz branca dura que ilumina as matas noturnas por onde os atores caminham.
Também sua pele é base para se experimentar uma infinidade de cores: o preto encardido da poeira que os ventos de Paulo Afonso levantam e que seu suor acumulam, o cinza do carvão que passa na cara como uma pintura de guerra, o vermelho do sangue de seus inimigos que banham ele e seu uniforme que, ao fim do filme, já têm tantos rasgos e intervenções que não carrega mais correspondência aos padrões indumentários da pátria.
A voz de Lima Duarte, então, é quase tão presente quanto sua imagem. A escutamos quase o tempo todo, sobre diferentes timbres, entonações e volumes. Às vezes direcionada a um personagem ao lado, às vezes saída diretamente da sua cabeça, em voice over, mas sempre se endereçando à nós, ou ao próprio Brasil. Geralmente proseando redundância e ufanismo, mas também virando ruídos de hesitação e confusão, ou mesmo cantos de aves que ecoam com alegria pelas matas verdes. O que Lima faz com a variação da sua voz, do desenho de suas linhas do rosto, da abertura de seus olhos, cada detalhe de si que a câmera dá todo o direito de focar, parece carregar anos e anos de uma dramaturgia que poucos sabem realmente aproveitar em quadro.
Mas é talvez tanta obsessão pelo próprio ator que faz o filme se sair mal com a dramaticidade de seu argumento e tomar tantas escolhas que pouco funcionam para si. O resultado final das cenas, em sua mediação entre coreografia teatral e particularidades técnicas, é canhestro. Nenhum tiroteio consegue se articular bem entre os cortes, ou mesmo angustiar quem o testemunha. Tudo precisa ficar à cargo do monólogo de Getúlio para nos emocionar, de forma que até mesmo quando seu parceiro é baleado, não há drama algum no ambiente ou em Lima Duarte, só o conteúdo melancólico de suas palavras que reagem ao ocorrido.
É difícil pensar o que exatamente motiva a falta de dramaticidade ao longo do percurso de transporte do prisioneiro, se os desafios das condições materiais de filmagem nas regiões ou certo débito que parece existir com os grandes personagens que atravessavam o almejado Brasil profundo, gritando seus versos em euforia. Como se precisasse se esforçar para que os saltos histriônicos de Getúlio pelo campo durante um conflito se fizessem semelhantes com os do Corisco de Othon Bastos.
Uma frieza de uma abordagem brechtiana que precisa ser evocada. Além de tudo, uma faceta mística e misteriosa do interior sergipano vai tentando ser sugerida ao longo do filme, ainda que, desde o início, estejamos acompanhando os delírios de um universo interior e adoecido, e não tão relacionado com a psicodelia do universo religioso nordestino.
Talvez algumas imagens do Nordeste estabelecidas por outros caminhos do cinema brasileiro de relativo sucesso ainda precisassem figurar em um momento que, mais do que nunca, afirmar a existência cinematográfica de uma região ainda pouco filmada, precisava significar também a existência de retorno de público. Talvez não fosse possível ser tão radical quanto o personagem de Lima Duarte, no êxito da concepção da obra, mas, ao longo dos tempos, a entrega visceral do mesmo seguirá impactando mais e mais pela força do golpe da fisicalidade, antes de sua expressão verborrágica.



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