Terra em Transe: América Latina e a perseguição da ditadura a Glauber Rocha
- Isabel Vale
- 6 de fev.
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Atualizado: há 3 dias
Ao voltar à liberdade, depois dos dias de cárcere no episódio “Os Oito do Glória”, durante os quais preparou grande parte de Terra em Transe, Glauber Rocha partiu para a realização do filme, que foi inteiramente produzido e realizado em 1966.

Terra em Transe é um retrato dos regimes totalitários em toda a América Latina, utilizando de uma realidade figurada que conta a história do país “Eldorado”. O nome faz referência à lenda que dizia haver em nosso continente, uma cidade indígena onde tudo era feito de ouro. Tal lenda se espalhou entre a Europa e os europeus que moravam na América, resultando em diversas expedições com inúmeros homens atrás de ouro.
Terra em Transe conta a história do jornalista Paulo Martins (Jardel Filho), que por ser progressista, abandona seu aliado político, o senador ligado aos setores conservadores Porfírio Diaz (Paulo Autran). Paulo vai para a cidade de Alecrim, onde conhece o vereador Vieira (José Lewgoy), que logo chama a atenção de Paulo por ser populista e se mostrar mais preocupado com o povo. Paulo, junto com sua amiga e ativista Sara, cujo papel foi executado pela atriz Glauce Rocha, ajudam Vieira a se eleger governador, porém após a eleição, o político passa a se mostrar menos interessado e sem firmeza na execução de seu trabalho em prol do povo.
O nome do senador que se torna presidente através de um golpe, foi dado em referência ao Militar Porfírio Díaz, que foi presidente do México de 1876 a 1880 em seu primeiro mandato, e de 1884 a 1911 no segundo. Embora fossem realizadas eleições, Porfírio sempre as manipulava e afastava os mais fortes concorrentes para permanecer presidente. Por conta do período de aproximadamente três décadas no poder e pelo fato de Díaz realizar um governo totalitário e opressor, iniciou-se a Revolução Mexicana liderada por Emiliano Zapata em 1910, um dos marcos mais importantes da história da América Latina.
Com teor revolucionário, influenciado também pelo aumento da repressão pelo Regime Militar vivido no Brasil, a obra sai aplaudida por grande parte da esquerda, os que enxergaram na obra um grande teor revolucionário, que em alguns momentos incita a resistência através de diálogos marcantes e ações que remetem à guerrilha. “Não se muda a história com lágrimas” diz o protagonista, Paulo, ao ser questionado a respeito do derramamento de sangue que a revolução proposta traria.

Após a produção realizada em 1966, Terra em Transe foi lançado no ano seguinte e embora tenha visíveis críticas e deboches ao Regime Militar brasileiro, a censura não partiu do governo, mas sim da igreja. O filme foi considerado subversivo, e por ter inúmeras cenas que foram consideradas ofensivas à igreja e ao governo, a liberação do filme não se resolveria com simples cortes no áudio. Terra em Transe teve sua exibição proibida nacionalmente nos cinemas, não conseguindo se salvar mesmo com uma repercussão positiva internacionalmente e com os prêmios que conquistou. Dentro do Brasil o filme foi criticado, é claro, pela crítica mais conservadora e também foi duramente desaprovado por muitos intelectuais e artistas de esquerda, segundo o próprio Glauber.
Embora o filme possa ser interpretado como um defensor da guerrilha, Glauber não tentou esconder as críticas do filme à esquerda latino-americana. As críticas à Vieira e ao populismo são nítidas. O diretor sempre deixava claro em declarações e entrevistas de que Terra em Transe não atacava somente um lado da política.
O diretor exilou-se em 1971, quando a censura estava em seu período mais severo após o Ato Institucional n° 5. Glauber, embora longe, manteve-se irreverente e destemido contra o Regime Militar brasileiro, o criticando em suas entrevistas em todos os países por onde passava, o que causou grande fúria no governo.
Em 2014, a comissão de verdade divulgou arquivos onde se suspeita que o regime queria Glauber Rocha morto, comprovando que a perseguição passaria de prisão e tortura, como no caso de outros cineastas. Em um dos arquivos do cineasta baiano, está escrita a mão a palavra “morto”. Segundo a presidente da Comissão de Verdade, Nadine Borges, tais escritos nas capas dos processos eram um indicativo de ordem e por essa razão a Comissão da Verdade acredita que os militares tinham planos para assassinar Glauber Rocha. O documento divulgado é do ano de 1971, pouco antes do diretor partir para o exílio, motivo pelo qual conseguiu escapar dos planos do regime.



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