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Uma Manhã Cinzenta em 1969

  • Isabel Vale
  • 13 de jan.
  • 8 min de leitura

Filme que marcou o cinema político brasileiro durante a ditadura militar traz uma história de perseguição, censura e tortura


Idealizado pelo cineasta baiano, Olney São Paulo, o filme de média metragem Manhã Cinzenta, lançado em 1969, foi realizado de maneira colaborativa por todos os que se interessaram pelo projeto. A obra foi financiada através de empréstimos, já que para arrecadar legalmente patrocínios e ou financiamentos públicos, era necessária a aprovação do roteiro, o que o diretor acreditava não ser possível por questões políticas e ideológicas presentes no projeto do filme..


O roteiro foi adaptado do conto “Manhã Cinzenta”, do livro “A antevéspera e o canto do sol” de autoria do cineasta, que chegou a pensar em adaptar mais duas narrativas, tornando-as um filme só, dividido em três partes. No momento de realização do filme, ainda estava presente na sociedade e, sobretudo, entre os estudantes a esperança de que a ditadura poderia ser revertida e sentiam a, partir dali, que era possível voltar à democracia, já que a adesão às manifestações e passeatas aumentava consideravelmente.


O filme, como o próprio Olney classifica, é uma ficção científica que se passa em uma sociedade reprimida por um governo autoritário. Manhã Cinzenta conta a história a partir de dois estudantes que são contra a repressão imposta por este sistema e que planejam atos para resistir mas acabam presos. Durante a detenção os jovens são interrogados e torturados e ao fim, a protagonista é morta.


As gravações ocorreram em 1968, e, embora houvesse um roteiro, a execução contou com improvisos, sem grande produção. No dia 21 de junho daquele ano, houve, no centro do Rio de Janeiro, uma manifestação de estudantes contra um cerco policial que ocorreu no dia anterior na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e, nessa passeata, Olney decidiu gravar uma das cenas do filme. Nela, Sílvio (Sonélio Costa) faz um discurso em meio à manifestação e é levado preso. E a realidade imitou a arte: os policiais acreditaram se tratar de um agitador no ato e resolveram levá-lo à delegacia. Neste momento, Olney e José Carlos Avellar, que estavam observando e registrando o ocorrido de longe, permanecem filmando e, depois, tentam explicar aos policiais que se tratava apenas das gravações de um filme e que Sonélio sequer era estudante.


Os dois foram levados também pela polícia, mas não ficaram detidos, enquanto o ator foi liberado dois dias depois, após explicações e apresentação das gravações realizadas.


O filme inicia com a protagonista Alda dançando ao som de “GroupGroupe” da banda “The Fugs” em uma sala de aula, onde estão alguns de seus colegas estudantes sentados. A letra da canção, cujo teor revolucionário está presente, fala sobre “agrupar o grupo”, algo que os protagonistas do filme tentam realizar organizando e planejando tentativas em grupo para lutar contra o governo autoritário. A banda estadunidense The Fugs, que fez sucesso na década de 60, é uma banda cujas músicas possuem críticas políticas e sociais através de sátiras e letras obscenas.


Após esta cena, os dois estudantes são mostrados na viatura da polícia, onde estão sendo encaminhados para o interrogatório. Logo após a cena da viatura, o filme volta a mostrar os estudantes na sala de aula, debatendo a atual conjuntura política e tentando planejar algo para reagir contra o governo. E, desta forma, indo e vindo por entre o passado e o futuro da história, o filme sempre dá voltas no tempo. Durante o filme são exibidas cenas de manifestações registradas em atos que ocorriam na época. Uma canção bastante marcante contra o regime também faz parte da trilha do filme: a música “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso, é tocada rapidamente.

Os dois jovens são levados para o interrogatório onde são questionados por um policial e um robô. Durante o interrogatório, também ocorrem as polêmicas cenas de tortura. Embora o filme não pretendesse ser uma crítica direta ao Regime Militar brasileiro, acabou sendo o primeiro a retratar tais atrocidades que o governo fazia de maneira escondida, pois apenas a partir de 1968, ano da filmagem, é que se tornaram mais comuns tais artifícios de intimidação do regime. Embora na comissão da verdade tenham sido descobertos diversos casos de torturados e desaparecidos logo após o golpe em 1964, durante o transcurso, tudo era muito secreto e estes atos raramente vinham ao público. Essa realidade passou a mudar apenas quatro anos depois.


Durante a realização do filme, no dia 13 de dezembro de 1968, foi declarado o AI - 5. Após o ato, a situação das pessoas que se diziam oposição ao Regime Militar mudou drasticamente, pois a perseguição aumentou, as prisões e desaparecimentos de pessoas também. A censura passou a ser mais rigorosa, e a esperança de reversão da situação que havia em 1968 já não mais existia, pelo menos não da mesma forma.


Por se tratar de um período pós-AI 5, e de um filme com cenas de tortura e resistência, ele sequer foi enviado à censura, pois Olney sabia que não seria liberado, porém algumas cópias foram enviadas a festivais cinematecas fora do país, onde a censura não alcançaria a obra.


Finalizado e exibido pela primeira vez em 1969, “Manhã Cinzenta” nunca teve um lançamento ou uma estreia. Todas as suas exibições eram pequenas e escondidas para amigos e amantes do cinema, e, assim, o filme passou a circular clandestinamente. No Rio de Janeiro, ele passou a ser o assunto mais comentado entre intelectuais e todos os que tiveram a oportunidade de assisti-lo.


A grande polêmica acerca do filme ocorreu em outubro de 1969, depois que um jovem cineclubista pediu a Olney São Paulo uma cópia do filme para exibir em um cineclube e este cedeu a cópia sem grandes problemas. Após a exibição, a cópia cedida pelo diretor acabou sendo vinculada a um grupo que sequestrou um avião que estava saindo do Rio de Janeiro cujo destino era Manaus com escala em Belém e acabou tendo seu destino mudado para Cuba pelos sequestradores.


Existem duas versões sobre a relação do filme com o sequestro. Na versão mais famosa do acontecimento, Elmar Soares de Oliveira, que, na época, era membro da Federação Carioca de Cineclubistas, teria ficado com a cópia após a exibição do filme no cineclube; como ele participou do sequestro, exibiu o filme no avião para todos durante o voo. E assim, os passageiros relataram o fato à polícia que, imediatamente, foi em busca de Olney.


A outra versão, menos conhecida, mas relatada como a mais “possível” dentre as duas, é a de que a lata com a cópia de Manhã Cinzenta teria ficado no apartamento de Elmar após a exibição no cineclube e, depois de o jovem participar do sequestro, a polícia, em uma revista em sua casa, encontrou o filme e, daí, iniciou a perseguição.


Nenhum dos relatos até hoje são comprovados, porém, pelo fato de não haver equipamentos para exibição de filmes em aviões, na época, por serem muito pesados, e também difíceis de conseguir, acredita-se que, de fato, o filme foi encontrado pela polícia depois, ou seja, não aconteceu a tal exibição falada na primeira versão do caso.


Um dos motivos pelos quais o episódio ganhou grandes proporções foi pelo fato de que, uma semana antes do sequestro, a polícia havia declarado o fim do Movimento Revolucionário Oito de outubro, MR8, e os sequestradores batizaram o ato como sendo do movimento, o que fez com que as autoridades brasileiras ficassem ainda mais revoltadas com o ocorrido, o que gerou muita repercussão nacionalmente.


Após o sequestro, a polícia, então, passou a perseguir Olney, que, nesta época, estava no Chile para o II Festival de Cine Latino-Americano em Viñadel Mar. Quando retornou ao Rio de Janeiro, o diretor foi alertado por amigos de que a polícia estaria à sua procura e de que haviam confiscado os negativos do filme no laboratório em que se encontravam. Olney, então, decidiu apresentar-se à justiça com um advogado do Banco do Brasil a fim de prestar esclarecimento a respeito do filme.


No interrogatório, que ocorreu no dia 10 de novembro de 1969, o baiano declarou não ter quaisquer vínculos com o sequestro do avião, assim como não ter autorizado que a cópia fosse levada, como supostamente foi. Olney teve que explicar também o fato de o filme ter sido exibido no Festival no Chile, passando por cima da censura, e apresentar diversos documentos do filme, a respeito de financiamentos, e justificar que a cópia que estava com Elmar tinha sido paga por ele, pois o filme faria parte do acervo da Federação de Cineclubes.


Segundo testemunhas, Olney estava seguro de que tudo havia sido esclarecido e que a vida voltaria à normalidade, quando, na mesma semana, no dia 13, ao se encaminhar para assinar o seu depoimento cedido à polícia, o diretor desapareceu e ninguém tinha informações de seu paradeiro. Durante estes dias em que esteve incomunicável, Olney foi interrogado e torturado. No dia 22 de novembro, nove dias após o seu sumiço, a polícia voltou com Olney em sua casa para buscar latas dos filmes “Grito da Terra” e “Manhã Cinzenta”, assim como roupas usadas no filme, dentre outros objetos.


Logo após ser finalizada a busca dos materiais, Olney foi levado pelos policiais e novamente permaneceu desaparecido. Os relatos são de que o diretor já estava bastante abatido nesse período, aparentando estar doente. No dia 5 de dezembro, Olney foi liberado, sendo logo internado com suspeita de pneumonia dupla, o que depois foi confirmado.


Durante o tempo em que esteve preso, todo o elenco e equipe do filme foi intimado a prestar depoimento. O ator Sonélio Costa, que fora preso durante as gravações, temeu por sua vida e se recusou a prestar depoimento, recebendo no local onde moravam diversos bonecos com a cabeça decapitada. Com medo do que poderia acontecer, Sonélio foi para o interior da Bahia e, depois, para a Europa, exilando-se.


Embora Olney nunca tenha contado a ninguém os detalhes das torturas que viveu, relatou para os mais próximos apenas sobre uma luz forte que ficava sempre virada na direção de seu rosto para que não dormisse, e que, quando cochilava, era agredido para permanecer acordado. Também relatou que levou duas injeções, que, segundo os policiais, eram para “acalmá-lo, pois estava muito agitado”. Alguns amigos contam que Olney passou a ter uma sensibilidade muito forte a sons e barulhos, que claramente o incomodavam, sem contar, é claro, na desestabilidade que tinha ao ver alguém fardado na rua, assim como a aversão que criou a armas, mesmo que de brinquedo.


Seus filhos relataram diversos casos de violência e abusos da polícia durante a perseguição a seu pai. Olney Jr, Ilya e Irving, que na época tinham respectivamente 7, 6 e 5 anos, tiveram armas apontadas para suas cabeças, nos dias em que o cineasta estava preso, na tentativa dos policiais de contar com a colaboração da esposa de Olney, Maria Augusta.


A perseguição não parou após a prisão e tortura de Olney. Descobriu-se, depois, que o telefone da casa havia sido grampeado e que as ligações eram monitoradas pela polícia; então, quando necessário, faziam uso do telefone de vizinhos para não ter as conversas gravadas. Depois que Olney voltou regularmente a trabalhar no Banco do Brasil, um de seus torturadores o procurou no trabalho apenas para desestabilizá-lo. Neste episódio, Olney teve um surto nervoso e o banco, então, decidiu aposentá-lo.


No fim de 1970, Olney foi denunciado por Walter Wigderowitz, procurador da 3ª Auditoria do Exército por ter feito Manhã Cinzenta pois acreditava que o filme evidenciava notícias falsas e deturpadas do governo, se enquadrando no artigo 16 da Lei nº 5.250 de 1967 da Lei de Segurança Nacional. Olney conseguiu o advogado Modesto da Silveira, que se ofereceu para defendê-lo e permaneceu com ele até o final. O processo contou com depoimentos da equipe do filme, de colegas do cinema, chegando a aproximadamente quinze depoentes.


Olney argumentou até o final que o filme não difamava o regime por não ter nenhuma citação nem nada que fizesse o espectador acreditar que aquilo se passava na sociedade da época. Manhã Cinzenta, que retratava uma sociedade fictícia, assim como Terra em Transe, não fez referências diretas ao regime ou ao Brasil, diferente de O Desafio. Durante o processo, Olney também solicitou a exibição do filme para comprovar ao júri dos argumentos da defesa e apenas no final teve a oportunidade de mostrá-lo e defender seus pontos de vista.


Depois de um processo longo e cansativo, o cineasta foi absolvido por 3 votos contra 2, mas ainda não estavam acabados os seus problemas na justiça. Após o resultado do processo, o procurador Humberto Augusto da Silva Ramos solicitou a condenação de Olney pelo artigo 15 º também da Lei de Segurança Nacional. O processo, desta vez mais curto e menos cansativo, teve resultado no início de 1972, absolvendo de vez o cineasta. Ambos os processos foram baseados no depoimento que Olney prestou à justiça em 1969 antes de ser preso e torturado. O primeiro processo enfrentado por Olney ganhou bastante repercussão não só nacional como internacionalmente; foi a primeira vez em que um cineasta foi processado por realizar um filme no Brasil.

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