• Arthur Gadelha

Rosa Tirana: em busca de vida própria

Atualizado: Fev 8

A fábula sensorial de uma garota em busca de chuva no sertão

É curioso que parece ser sempre o mesmo obstáculo, pelo menos de alguns anos para cá, que o cinema "de sertão" enfrenta, o de soar da mesma forma. Nessa ficção de Rogério Sagui sobre uma menina que peregrina em busca de chuva, o sertão se reveste de poucas fugas. Sertânia (2020), por exemplo, para citar um filme bastante recente, entende essas repetições e se transveste desses pontos soando como uma coisa peculiar.


Em Rosa Tirana, sinto que a trilha sonora insistente é o sintoma mais explícito dessa sensação morna, martelando de forma superficial o sentimento da fome, da sede, da pobreza - vira uma coisa meio que sem respiro. Talvez fosse a ideia original ter esse elemento como sugestão de um "musical nordestino" - perspectiva que se torna até bonita na cena da dança junina -, mas a ausência de elementos potentes ao redor não ajuda muito na intenção de ganhar vida própria.


Claro que "ser coisa nova" não é um desejo-guia para se conceber ou interpretar filmes de temas usuais e tampouco isso está na jornada de Rosa Tirana. Essa extensão da identidade-comum na representação do sertão é algo amplamente consciente da obra e é nessa fresta que encontramos suas qualidades, numa espécie de autoafirmação também importante para que o filme se certifique do que está contando. A breve sensação de suspense, essa iniciação da fantasia e o texto que se inspira na subjetividade dos personagens misteriosos (o olhar cego, o moço sem rosto), são caminhos que vibram em busca de materialidade dramática - é nessa intenção que sua identidade me parece bastante escondida.


Mesmo que Elba Ramalho encerre a história ao cair da chuva, premeditada ainda na sinopse, é no seu terço final que as coisas ficam, perdoem retomar essa discussão, "peculiares". Algum tipo de abertura dramática finalmente pinoteia ao redor do universo construído para essa garota encontrar o sonho. Ou seja, Rosa Tirana me parece um filme pela metade, que se joga em muitas vontades e se contenta em encontrar o mínimo. É por isso que a viagem, apesar de frágil, não deixa de ser interessante.

★★½

Direção: Rogério Sagui

País: Brasil (BA)

Ano: 2020

Essa crítica faz parte da Cobertura da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

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