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  • Foto do escritorArthur Gadelha

“Perlimps” fabula a injustiça de um mundo que deixou de ser criança

CRÍTICA Novo filme de Alê Abreu retoma o olhar infantil sobre o caos do "mundo real"

Com a aventura tão alegórica quanto literal de O Menino e o Mundo (2013), Alê Abreu atravessou inocência e desastre de tal forma para que essa contradição estivesse principalmente na imagem – o traço do desenho fino e pouco detalhado, como que rabiscado por uma criança de cinco anos, ilustrando uma sociedade mediada pela desigualdade e pela exploração trabalhista. Pela surpresa dessa ser uma história contada para crianças, o filme colecionou grandes impressões, rendendo inclusive uma indicação ao Oscar de Melhor Longa-metragem de Animação. Em 2023, Perlimps chega como se fosse uma digna continuação da mesma esperança, e da mesma tragédia.


No filme que estreou ano passado no grande Festival de Annecy, seres que parecem fofíssimos ursos de pelúcia anulam suas diferenças para embarcarem na missão de encerrar uma guerra que pretende atacar a floresta – para isso precisarão encontrar os “Perlimps”, criaturas míticas que se conta serem capazes de fazer isso com a energia da união. Juntos, saltam pelas matas e pelas nuvens atrás de algum sinal, rumo ou de qualquer esperança. “Por que estamos brigando mesmo? Nem lembro mais”, confessa um para o outro em certo momento de suas desavenças e desconfianças.


Dando certa mensagem do que encontraremos no final, o desenho dos personagens e dos cenários passam a constante impressão de que estamos dentro de um sonho, imaginando se há mesmo algum perigo no meio daquela explosão de cores. Diferente da obra anterior, aqui temos diálogos audíveis que dão ao filme um poder maior de digestão narrativa, e mantêm-se com certa timidez um dos elementos mais bonitos de imersão: a música, aqui trazida com menos elementos e de forma mais contemplativa.


João de Barro é interpretado por Stênio Garcia

No momento mais bonito da jornada, um conjunto pequeno de ondas sonoras levam Claé e Bruô a encontrarem João de Barro, personagem de grande influência na equação que se constrói entre realidade e fantasia com todos os seus lamentos. “…fiquei preso num gigante”, ele revela, um pássaro que foi para o mundo dos homens tentar mudá-lo e acabou esquecendo que ele mesmo já voava, sem precisar dos caças e das asas. Serviu aos interesses ofensivos e acumuladores dos humanos que, aos poucos, lhe cegaram.


É o que crescer faz com a gente? Se for uma mensagem óbvia ou repetida, que seja para seu público. Na minha sessão só tinha duas pessoas além de mim: uma mãe e seu filho – percebi que ele reagiu a cada etapa da aventura com admiração, torcendo para que ao fim ele mesmo pudesse ver os Perlimps... Se ele tiver saído da sala com esse desejo intacto, acho que já terá sido grande coisa. No seu filme, Alê coloca a criança nesse lugar de que ela ainda não está presa “ao gigante”, e que por isso ela ainda pode tudo, pode salvar o mundo de seu destino.


É uma pena que o filme se prolongue tanto até chegar a esses pensamentos, confiando muito na fofura das paisagens e tornando algumas sequências ou conversas longas demais até flertar com o cansaço e com a repetição. Apesar disso, Perlimps nunca deixa de encantar mesmo que tão rodeado de desastre e certo pessimismo – isso acontece de forma honesta porque, mais uma vez, estamos diante de um universo onde o lúdico em desordem é o oposto da “ordem e progresso” que destrói tudo ao redor com o dinheiro, a guerra e o desprendimento de nossa natural existência de bicho. Isso, afinal, também é assunto de criança.


Sinto que é uma mensagem simples e imensa para deixar em sua audiência a fé de que é possível crescer sem nunca esquecer da missão que está lá no fundo. “Eles vão voltar pra floresta?”, perguntou o pequeno atrás de mim depois de Claé proferir aquela linda afirmação do desfecho. “Vão sim”, respondeu a mãe, numa esperança tão confiante quanto a daqueles dois que tentaram unir um mundo destinado a divisão. Missão cumprida, imagino.

 
 

Direção e Roteiro: Alê Abreu

Produção: Laís Bodanzky, Luiz Bolognesi, Ernesto Soto Canny.

Produção Associada: Rosane Svartman

Assistente de Direção: Viviane Guimarães

Direção de Arte: Alê Abreu

Trilha Musical: André Hosoi

Trilha Sonora Original: André Hosoi, O Grivo

Montagem: Alê Abreu

Desenho de Som: O Grivo

Elenco: Giulia Benite, Lorenzo Tarantelli, Stênio Garcia


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