• Arthur Gadelha

Partida: Caco Ciocler brincando de realidade

Caco aposta no hibridismo consciente de documentário e ficção em busca da frágil realidade política brasileira

Nessa estrada, um grupo de artistas freta um ônibus e parte numa missão impulsiva: falar com o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, liderança mais carismática da esquerda contemporânea por "ter as respostas simples". Na prática literal da viagem, essa é mesmo uma história real, e o estreante Caco Ciocler conquista uma narração engenhosa ao assumir (ou fingir) que não tem o controle do mundo. Nesse sentido, Partida sobrevive como um filme de propostas que exige a interrupção de sua audiência para fazer sentido além do que se rotula ser o experimento dramatúrgico.


Objetivamente, esse filme capta de forma até engraçada aquela energia explosiva de frustração, medo e desespero que alcançou qualquer brasileiro minimamente progressista diante da eleição de Bolsonaro em 2018 - afinal, nada mais expressivo que brasileiros "fugindo" do Brasil antes da posse de um presidente cujas ações e pensamentos flertam diretamente com o fascismo. Ao mesmo tempo, de forma brilhante e tragicamente proposital, essa energia também se contenta com a superfície para enxergar um Brasil desmoralizado.


"A gente não representa nada, a gente não vai a lugar nenhum", revela Georgette numa terapia improvisada à beira da estrada. Assim como esse ponto de vista, esse filme também é apenas discurso na essência, uma fragilidade que faz parte de documentar a ficção e de ficcionar o documento ao mesmo tempo. Não deixa de ser criativo e, em diversos pontos, envolvente. Mas o legal mesmo é enquanto o filme sabe que é mais forma do que conteúdo, quando ele sabe que está investindo numa intensidade medonha diante de quase nada real. Afinal, o momento-chave que torna esse bate-boca em filme, como afirma o produtor, é apenas a dualidade inconsistente da política brasileira muito bem interpretada pelo lado do conflito.


À medida em que os personagens se tornam mais íntimos da convivência e da estrada, o filme também tem seus momentos de orgulho ao apresentar a "realidade", embora poucos deles pareçam empolgantes para além da superficialidade coletiva. Em seus minutos finais, felizmente, há uma "realidade" tão energizada que, de repente, toda ficção e fantasia valem a pena.

★★★

Direção: Caco Ciocler

País: Brasil

Ano: 2019

*Filme assistido no Cineclube Âncora