• Arthur Gadelha

Os Brasis de Dora e Cristiano

Sessão conjunta de Central do Brasil (1999) e Arábia (2017) repensam o Brasil



Me peguei pensando nesses dias seguidos a onda que bateu em mim na quinta-feira, graças ao Cinema do Dragão. Assisti duas obras tão enérgicas e que, apesar de tê-las visto antes, não suspeitava do poder de diálogo que tinham entre si, e sequer o cinema brasileiro poderia imaginar pela distância de seus contextos. Central do Brasil (1998) de Walter Sales e Arábia (2018), de João Dumans e Affonso Uchoa, separados por 20 anos e dois brasis. Não o Brasil imediato de evolução, apesar de que Dora é uma personagem dos anos 90 que parece já não existir; mas um Brasil "novo" que ainda se debate sobre a presença do capitalismo enquanto poder social, e a emergência da luta das classes trabalhadoras.


Dora e Cristiano partem numa jornada inevitável pela estrada, atrás de uma resposta que talvez nem tenha pergunta. São suas vidas que, condicionadas à sobrevivência, podem descobrir que os momentos de amor ainda estão muito acima do espaço marginal que lhes cabem.

Dora, de repente, tem


que se responsabilizar por algo além da sua diária tarefa de existir no Brasil da fome, enquanto Cristiano precisa sobreviver no Brasil da exploração trabalhista. O Brasil que por 8 anos foi gerenciado por um líder sindical, é hoje um Brasil cujo presidente é defensor das relações informais de trabalho que tanto escravizaram Cristiano. "O trabalhador terá que escolher entre mais direito e menos emprego, ou menos direito e mais emprego".


A saga de Cristiano é da automação operária, uma peça que pode ser descartada a qualquer instante. Já Dora, distante da figura altruísta, é uma senhora que reinterpreta diariamente seu papel para se manter no Brasil mal democratizado ao fim do século XX, esfomeado, mísero. Cristiano e Dora não aprendem em suas jornadas como fugir desses Brasis, mas a experiência do carinho os transforma p


ara se perceberem além da muralha. O operário "marrento" se apaixonou, e esse amor o seguiu aguentando até as pressões de si e do sistema entrarem em colapso. Dora descobriu que podia amar fora do contexto, mesmo tendo sido uma filha sem história, mesmo que desde muito cedo tivesse sido obrigada a enxergar a vida sem qualquer existencialismo.


Tanto que não sabemos para onde partem após os créditos. Nos despedimos deles com o coração e as cicatrizes do Brasil nas mãos. Só podemos supor, e nada melhor que isso, que suas histórias são essas e que talvez elas não mudem, como a Cléo de "Roma" que só tinha como opção seguir a vida no próprio espaço.


Do lado de cá, a gente pode pensar quais tantos desses Brasis ainda fingimos não conhecer. Porque temos culpa de tudo.