• Arthur Gadelha

O Processo: contra o Império, a queda de Dilma Rousseff

A resistência pode não vencer nos próximos capítulos

Shopping de domingo - aquela pipoca valendo o triplo do ingresso que já é mais caro nesse dia, praças de alimentação cheias, e tudo mais. Mas enfrentei toda essa burocracia e fui ver Han Solo, a nova história Star Wars. Não esperava gostar tanto. O filme de Ron Howard me contou uma história divertida, tanto pela energia sincera das sequências de ação como pelo emaranhado empolgante da trama, um dos mais belos enlatados norte-americanos dos últimos anos. Saí feliz, com vontade de reassistir Uma Nova Esperança, queria ser um piloto, queria ter uma missão tão honrada quanto a de Solo. Saí com vontade de ser um herói. Voltei 17 anos no tempo para a criança que saiu de Harry Potter e a Pedra Filosofal querendo empunhar uma varinha mágica...


Na quarta-feira, eu enfraqueci. Era um dia feliz de realizações pessoais. Sobrou um tempo, fui assistir O Processo, de Maria Augusta Ramos, que estava devendo há muito tempo. Por mais de duas horas, não pisquei. Os fatos que eu acreditava serem tão recentes sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff tomaram a proporção de um terror. Por alguns dias, havia me esquecido do horror que o Brasil se tornou. No fim da década de 1970, Star Wars fez sucesso vendendo a história de resistência abertamente agressiva contra um regime imperial. Já sabíamos, mesmo sem Rogue One, que o movimento era a continuidade de muitos outros que fincaram os pés numa missão violenta. No Brasil “democrático” de 2016, tudo o que nos coube foi sair nas ruas e gritar, mas ninguém quis ouvir.


Não sou jurista, advogado ou nada do tipo. Sou um cidadão. Graduando em Comunicação Social por uma iniciativa de financiamento federal, hoje eu vivo pela cultura. Apoio a organização de um cineclube lindo com a Kamilla Medeiros, o Âncora, que nasceu de forma espontânea num curso de cinema promovido também pelo poder público. Semanalmente, vejo a Milla quebrando a cabeça pra pensar sessões atrativas, como trazer debates culturais que sejam capazes de enriquecer e formar novos públicos. No último mês, Milla programou sessões de cinema africano e ela me fez descobrir muito no processo de pesquisa, exibição e debate. É difícil acreditar que essa cultura em toda sua pluralidade tenha espaço num governo que montou o circo do impedimento.


É o mesmo desgoverno que já ameaçou a existência do Ministério da Cultura, que tentou calar a potência de Aquarius, e que agora quer invalidar O Som ao Redor, um dos filmes brasileiros mais bem-sucedidos na crítica internacional. Tudo faz parte do projeto político negociado à partir do fim das eleições de 2014, e é esse pessoal que está em evidência n’O Processo.


Fiquei impressionado que o filme se proponha em apenas ferir. Não cria narrativa de defesa, sequer comoção induzida e, exatamente por não ter ferramentas, opta por não trazer novidades. O que há de estarrecedor em O Processo é que ele se entende como documento. Um documento que não põe o dedo na ferida, mas vai jogando vinagre lentamente. É tão seco que vai remexendo as entranhas a cada novo capítulo que configurou o Golpe de 2016. Mas o que a obra também traz como reflexão é o benefício da dúvida quanto aos que estão do outro lado - não há como ter certeza se os homens que cantam o hino do Brasil (num ato assustador que poderia ser transportado de 1964) após o resultado da votação no Senado Federal, realmente entendem do que fizeram parte. Há algo maior. Criou-se uma consciência coletiva de concordância entre todos os que não se admitiam na lógica de “defender o PT”. Maria Augusta Ramos conta tudo isso sem trilha sonora, sem entrevistas ou artimanhas de documentários, e, principalmente, sem uma ficção fajuta de interpretação vergonhosa, como vimos a Netflix permitir este ano.


A beleza de O Processo é que ele dá medo para ambos os lados. Maria fez esse filme para um Brasil de hoje, onde até a classe popular de direita grita “Fora Temer”. Um Brasil que tanto grita “Lula Livre” como pede intervenção militar. Um Brasil que cogita levar a sério a besteira que é jair bolsonaro. Com uma montagem que não inventa a roda, e dividido como um catálogo, é um filme feito para cutucar o país do futebol (ou dos memes) - e se contenta com isso. Não tem o menor interesse em estender a conversa, de criar novas visões. O Processo é um “veja você mesmo”.


Quando Han Solo se despede da última aventura no novo filme, a felicidade permanece porque sabemos o que virá. Sabemos que, apesar de sofrer a ameaça do Império no futuro, ele e a resistência irão vencer nos próximos capítulos. A concluir-se de forma brutal, O Processo não deixa essa informação sobre o que enfrentaremos daqui para frente; se a permanência da Cultura será ameaçada novamente, se ainda teremos o direito de resistir.

Por enquanto, podemos tentar nos divertir com o cinema alheio. A mesma América que criou o super-homem para superar psicologicamente a crise pós-guerra continua vendendo tanto num mundo cada vez mais caótico da linha do Equador pra baixo. Isso porque o Cinema Brasileiro descolonizado não está alheio ao Brasil; pra falar da gente, ele não precisa viajar para as estrelas. Da garra do Cinema Novo aos pequenos sucessos do novo milênio, a gente se "diverte" repensando toda nossa história em cada obra. Nosso cinema fica por aqui, fala de pessoas, e fere, esperando lentamente que busquemos as cicatrizes.