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  • Foto do escritorArthur Gadelha

Negritude Infinita #01: baile ancestral

“Um corpo não é só um corpo. Um corpo é o encontro com outros corpos”

Se a curadoria é, por si só, um elemento essencial para se entender o cinema como pensamento coletivo, esse processo é ainda mais atraente quando se torna indissociável da essência dos filmes que cura, quando suas aproximações (na convergência ou divergência), cumprem o papel de construir novas histórias na mesma proposição da frase acima, incorporada pela linha curatorial da 3ª Mostra Negritude Infinita: encontro de corpos. Na sessão "Linha Umbilical", um olhar de movimento cíclico, e de certa forma solitário, para a ancestralidade do corpo negro guia a aproximação de duas obras experimentais: Papiamento (MG), de Felipe Oladele; e Cavalo (AL), de Rafhael Barbosa e Werner Salles.


Em Papiamento, parte de um projeto maior intitulado "Projeto Atlânticos" na perspectiva da diáspora africana, há o encontro de três corpos imersos num pertencimento à natureza além-humana. Um só corpo que, apesar de móvel (movido de origem), faz parte do que está ao redor: do ar, da água, um elemento próprio, um corpo que também é instrumento de som, memória e comunicação, uma história reinventada dentro desse Brasil realocado. Ainda na introdução do curta, o olhar quieto desse corpo ao redor pelos sons da floresta parece um prelúdio daqueles que saltam do mangue no filme seguinte.


Ainda no prólogo, Cavalo evoca o surgir da humanidade quando filma os galhos do mangue que emergem dos rios. O caminhar sobre o emaranhado, o batizar na lama. O corpo negro, origem do ser humano, banhado num ritual de vento, canto, gritos e milagres faz com que Cavalo se apresente lentamente como uma experiência onírica e experimental sobre as identidades veladas desse Brasil. Reunindo artistas alagoanos para projetar suas ancestralidades, o filme mescla ficção, documentário, performance e musical de forma pouquíssima óbvia. Numa cena o banho na lama, na outra um passeio por um mercado urbano, um show escondido, um ritual religioso, uma entrevistada sob luz de palco, de filmagens profissionais a caseiras. Esse aspecto camaleônico leva ao espectador uma percepção de constante reinvenção apesar das poucas certezas.



Quando essa história ancestral invade o presente, invade também a "realidade". De repente, o jogo é documentar a ficção ou destrinchar a performance? Essa dubiedade vai sustentando uma busca de sentimentos sobre o corpo convertido no seu próprio movimento, na dança "sem dúvidas", como revela uma das artistas sobre sua devoção com a linguagem. Quando o teatro busca o impulso pela manifestação pura do corpo, essa viagem leva minhas sensações para Inabitáveis (ES), de Anderson Bardot - aqui, se não pautado pelo desejo, mas guiado pela efusão da identidade, de certo expurgo, respiro. Nesse jogo de construção, Cavalo também precisa negar uma "ancestralidade" imposta pela opressão dogmática. Não à toa toa quando a proteção cristã surge de forma naturalizada na fala de uma das personagens, o discurso se opõe em seguida na figura de uma Eva revoltada com a culpa que carrega na crença católica por uma tola desobediência.


Esses dois encontros iniciais da 3ª Mostra Negritude Infinita, felizmente, não caminha para respostas. A fuga final da artista que irrompe até o vazio do cenário com um grito de pânico ou epifania, deixa as sensações ainda mais à flor da pele, uma percepção emergente de que esses sons da natureza, da cidade, dos corpos, são sons infinitos.


Esse texto faz parte da cobertura da 3ª Mostra Negritude Infinita

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