• Arthur Gadelha

House of Cards: Claire Hale é um monstro que a série não sabe lidar

Na sexta e última temporada da série, Francis Underwood está morto. Sobra Claire.

Em 2013, o que impressionava na primeira produção original da Netflix, sob as mãos cuidadosas de David Fincher, era a metodologia sedutora com a qual falava sobre o poder. A história de um congressista frustrado que usurpa as instituições políticas norte-americanas para chegar em algum lugar cada vez maior era um constante tropeço na lógica da ordem, da hierarquia, e de toda influência e egoísmo que cada vez mais vive a política mundial. Francis e Claire Underwood nasceram lendários, marcos emocionantes de uma empresa que ainda tentava estabelecer suas produções originais, um “antes e depois” das séries políticas que nos invadiram essa década. Manipulavam os poderes dentro da própria relação, e isso provocou uma sensação nova na digestão entre personagens. A série se estendeu por cinco anos, e chegamos a esse ponto em 2018: a imposição de uma reta final. 


Com a saída de Kevin Spacey, a trama precisou se manter com Robin Wright, que por tantos anos interpretou Claire com uma precisão absurda, causando sempre uma relação de enigma com a plateia. A pergunta que chega oficialmente apenas na última temporada, porém, sempre esteve lá, escondida na mais inocente de suas participações: Claire é mesmo um monstro a altura de Francis? Ela surge na trama como diretora da ONG “Clean Water Initiative” e é lá de dentro que somos apresentados às suas primeiras interpretações do poder como consumo. Mesmo que a ONG não fosse acompanhada tão de perto pela mídia, e tenha sido incomparável com o holofote da presidência, Claire utilizava lá dentro até os mesmos recursos de autoritarismo que seu marido.   


Mas a essência de House of Cards durou pouco, e isso é bastante explícito na reviravolta corajosa em torno de sua estrutura. As duas primeiras temporadas são sobre caminhos que chegam a um lugar muito específico, apesar de sentirmos que não levam ao ponto final. 13 episódios para Frank se tornar vice-presidente, e mais 13 para se tornar o homem mais importante do país. São duas trajetórias impressionantes de acompanhar pela manipulação das peças desse jogo que acontece por todos os lados. Francis utiliza a própria corrupção como meio "democrático", controla a política dos bastidores e, com o constante auxílio de Claire, transforma seus objetivos em acaso trágico.


Em seguida, para a série, pareceu grande demais o fardo da história ser sobre um "jogo ganho", sendo preciso inventar diversos tropeços ao personagem que agora tinha a obrigação de se manter presidente. A imposição de um programa de empregos, conflitos com a Rússia, corridas presidenciais para se manter no poder democraticamente. São tramas que ainda assim permaneceram atraentes, embora tenham se embriagado na grandeza de seus objetivos. Na última temporada, após tantas deturpações do que um dia foi House of Cards, Francis Underwood está morto e onde estava Claire todo esse tempo? Foi revigorante vê-la se afastar de Frank e finalmente impôr sua altura, usar suas mesmas armas quando o obriga a torná-la vice-presidente na chapa da campanha. Mais ou menos por ali nasce Claire Hale.


O que House of Cards vende como “reviravolta” na sexta e última temporada começa e caminha de modo muito interessante. Claire é a primeira mulher presidente dos EUA e agora precisa lidar com a misoginia, a imagem de incompetência que lhe pintam os inimigos, a resistência de uma população que tem ódio de Francis. Mas há tanto desperdício nessa iniciativa, que a frustração é imediata. Acuada pelos adversários corporativos, Claire prepara uma vingança que causa muita expectativa. É emocionante, por exemplo, o plano de demitir todos os traidores e formar o primeiro governo completamente liderado por mulheres da história mundial moderna.

Logo em seguida, usa o feminismo como tática de permanência, criando uma complexidade incrível à personagem. Nesse momento, fica muito clara a resposta para a pergunta dita acima sobre Claire, pois Frank jamais teve uma estrutura social tão forte quanto a essa. O que frustra, no entanto, é que House of Cards perde seu precioso tempo de digestão das estratégias e tudo acontece tão rápido que se torna difícil enxergar algum traço de verossimilhança que ultrapasse a boa vontade. Quem são essas mulheres do novo governo? Como lida a população e a mídia? Como lida o Congresso que tanto guiou as decisões da série? Esses EUA são mesmo de verdade?  


Sumiu o povo, o congresso, as articulações políticas, e sobrou assassinatos como ferramentas fáceis, discursos com grande eloquência e tramas que se resolvem em salas escondidas com diálogos curtos. Nesse tabuleiro que Claire domina com pulso, jogam personagens que apresentam objetivos traçados como rascunho. Surge uma empresa que se envolve com manipulação de dados, contaminação de funcionários, e ao mesmo tempo com um o conflito na Síria; surge uma guerra inacabada, uma gravidez, e o Castelo de Cartas não sabe mais para onde atirar. O que custava episódios para ser orquestrado, agora acontece num estalo de dedos. Mark Usher, um personagem de contradição atraente, é golpeado em pouquíssimo tempo, e tudo parece dar certo com o autoritarismo de Claire, cuja aprovação popular salta para 80% sem que tenhamos acesso a qualquer complexidade dessa informação. 

A exclusão de Spacey foi imediata, e a rapidez e pouca esperança foram responsáveis por tudo que assistimos. Há muitos novos conflitos, e a Casa Branca se destrói sem resolver nenhum deles. Enquanto Claire Underwood era um braço direito de Frank, parecia mais fácil domar seus rumos, mas a verdade difícil de aceitar é que na história de Claire Hale é impossível pôr um fim. Robin Wright encarna como nunca o seu cinismo, o ódio velado, e a tão doce agressividade; é uma atuação monstruosa, e teria fôlego até mesmo para dar luz a uma nova essência. Mas, infelizmente, parece não haver mais qualquer espaço. 


O último episódio, no entanto, é “apenas” o desfecho de um Francis que nunca conseguiu morrer verdadeiramente na história. Outra verdade difícil: House of Cards ainda não consegue existir sem ele, e parece uma ideia brilhante dar fim a tudo com as ruínas de seu último suspiro. Não importa como vai terminar a guerra, se dará fim na família Shepherd, se contornará o Congresso sem Mark, se continuará presidente dos Estados Unidos da América. O que importa, apesar de pouco ter restado de atraente além disso, é que Claire será para sempre o monstro que a disputa de poder ao lado do marido, por tantos anos, construiu e se solidificou. 


A grandeza de Francis permanece intacta, mas Claire é o monstro que ficará na história.