• Arthur Gadelha

Na abertura do 10º Olhar de Cinema, "O Dia da Posse" sintoniza gesto de conforto

CRÍTICA Dirigido por Allan Ribeiro, documentário autodeclarado experimental propõe o looping de um cinema brasileiro que se adapta na limitação

Se o 9º Olhar de Cinema, em 2020, abriu com um filme gravado antes da pandemia (Para Onde Voam as Feiticeiras), e por isso dando o tom efusivo das discussões contraditórias que surgem do cruzamento de uma cidade recheada, não é surpresa que a edição desse ano dê largada com uma proposta quase que intencionalmente oposta na busca pelo significado de ver cinema (e de fazê-lo) num estado de tanto suspense e dormência qual o país, mais que o mundo, atravessa.


Como fica claro na hilária conversa em que Brendo descreve a forma como um jornalista narraria as intenções mais puras dessa história, O Dia da Posse é uma obra cuja beleza está na consciência híbrida entre documento e ficção que busca sintonizar o impulso da filmagem com o que há do lado de fora. Diferente de Esse Amor que nos Consome (2012), a transformação precisa acontecer do lado de dentro, apegada à suposição de que as histórias sejam automaticamente interessantes. Não que essa abordagem seja por si só especial, dado que uma série de outras obras partiram do mesmo projeto caseiro para declararem ao mundo que foram testemunhas de uma pandemia – especialmente os filmes impulsionados pela Lei Aldir Blanc nas esferas municipais e estaduais.


Diante disso, a resposta de exclusividade também está logicamente em Brendo, personagem que está ali para desconcertar o que já nem era tão organizado e estampar, para Allan e para nós, que a realidade em seu conceito mais superficial não se emoldura como tal. Sua personalidade performática, ensaiada ou não, propõe um carinho aparentemente inédito nos “filmes de pandemia” porque ele toma a missão de guiar com certo humor os sentimentos que para nós já não são novos porque cá ainda estamos vivendo tudo isso. Como no monólogo do futuro para o Big Brother ou na encenação do armário, a narração soa como se ele fosse o único a sentir as emoções enquanto o diretor posa como observador distante, como se pousado nas janelas do outro lado.



Pela janela do quarto

Pela janela do carro

Pela tela, pela janela

Quem é ela? Quem é ela?

Eu vejo tudo enquadrado


Quando não olha para Brendo, Allan olha ao redor tão desnorteado quanto a canção acima da Adriana Calcanhotto perdida na solidão das pessoas que resvala sobre a já dita impossível moldura. De olho nos vizinhos que se exercitam compulsoriamente e nos pais que comemoram cada nova “conquista” da vida enclausurada, O Dia da Posse vai se transformando num filme mais passivo do que se poderia imaginar, soando, portanto, bastante programado, inclusive nas sequências de respiro na praia (inspiração do pôster fascinante, ilustrado logo mais abaixo), debruçando-se sobre um estado de costume de uma pandemia já instalada como parte invisível da cidade e de nós.


Apesar de ser uma história muito quieta e conformada, também soa imediatamente como a escolha certa para abrir um evento de cinema cujo título resgata o princípio de que cada olhar é individual na devoção de seu próprio mundo. Nesse ponto em que estamos, realmente precisamos manter esse olhar de suspense, esperança e cuidado, mesmo que ele esteja em looping.

★★★

Direção: Allan Ribeiro

Roteiro: Allan Ribeiro, Brendo Washington

Produção: Allan Ribeiro, Douglas Soares

Som: Allan Ribeiro, Rodrigo Maia Sacic

Compositor: Paulo Ho, Allan Ribeiro

Direção de Arte: Douglas Soares, Allan Ribeiro

País: Brasil

Ano de Lançamento: 2021