• Arthur Gadelha

Como Nossos Pais: as filhas-mães


Era perfeitamente imaginável que Como Nossos Pais fosse um reflexo imediato da canção de Belchior, e bem antes que qualquer menção surja em tela (seria impossível negar a tentação), isso se torna explícito; a cena de abertura já é eficiente em tematizá-lo a essas discussões que fazemos comumente sobre as gerações. A impressão que permanece na superfície da projeção é que esse é ponto chave de uma obra que, afinal, quer discutir os olhares sociais sobre o papel da mulher que oscila entre o protagonismo e a figuração da própria vida. A união desses pensamentos, mesmo que parte deles não ultrapasse a lógica estrutural, faz da obra de Bodanzky um filme que vive, e precisa viver, nos tais dos “dias de hoje” – e encontra nesse caminho algumas coisas que valem permanecer.


O conflito de Rosa (Maria Ribeiro), ataca a figura dessa mulher que em simultâneo é a dona da casa, do trabalho e da família, e questiona sem precisar ir muito longe tudo que se espera desse gerenciamento. Para que não exista dúvida quanto ao caos em que vive, Rosa ainda se vê na posição de questionar a fidelidade do marido e de lidar com a aspereza de sua mãe. Bodanzky não esconde suas armas dramáticas, e isso torna maleável a consistência da jornada. A começar por escancarar as atitudes de Rosa diante a mãe que tanto critica, e posteriormente ao assumir o desafio de duvidar de quem ela talvez ache que é, sobre o lugar que acredita ocupar. A ideia já é eficaz simplesmente por levar o espectador a refletir o julgamento que automaticamente estabelece para cada um dos personagens. Há motivos para a angústia de Rosa, para a severidade de Clarice (sua mãe), para a ausência de Dado, e a inexistência de respostas exatas é o que constrói essa relação entre o filme e a plateia – afinal, estamos julgando também a vida fora do cinema. 


Em uma entrevista à revista Carta Capital, Laís disse que a obra não foi precisamente planejada, mas que estava feliz pelo contexto em que foi concebida. “Hoje é muito mais gostoso ser mulher”, e quando ela diz isso, refere-se a importância de se conhecer e, mais do que saber, querer ser mulher. Quando Rosa diz “Eu não quero mais fingir que eu sou uma mulher que dá conta de tudo” ao marido que pouco se preocupa em ajudar ou quando desabafa com um amigo “Eu sou uma máscara”, ela está reforçando a confusão diante a autonomia que lhe destinaram sem o devido valor. Laís se apoia nessa mulher que ainda não arrisca se redescobrir e a razão mora na sombra da mãe que, sem que possa resistir, aos poucos ela mesmo irá se espelhar – é esse o ponto (dito principal) que visivelmente poderia ser mais sutil. 


Apostando em um recorte naturalista, a obra transforma Rosa em qualquer mulher que se veja questionando seus atos pelo único fato de ser mulher. Ao externar esses fatores ao mundo que vive além de si, Maria Ribeiro aborda Rosa com uma emoção pulsante. Os olhos ora lacrimejantes ora sorridentes entregam a força dos sentimentos que norteiam essa jornada, construindo alguém pelo qual vale a pena rir e sofrer na mesma medida. Se a vida de Rosa segue em frente ou se complica, a nossa está em cada um desses momentos por sermos igualmente testemunhas de tudo o que acontece em tela. Essa dualidade é tão potente que em certo ponto esquecemos que a discussão sobre o machismo está sucumbida em uma camada tão frágil. 


Como Nossos Pais é sobre a feminilidade em uma intuição que trafega do medo a liberdade, sobre a ligação íntima de questões transcendentes a condição de maternidade, sobre ser também filha, e talvez também seja sobre os homens que orbitam a existência dessas mulheres. De modo geral, talvez seja sobre permanência, uma resistência calada, talvez seja sobre um empoderamento que não se traduz “somente” ao feminismo. Um conjunto de “talvez” ponderado sobre a esperança que sempre ressurge ao passo das gerações, e o que Laís Bodanzky diz é que precisamos ultrapassar essa utopia de que a vida ainda vai ser melhor.

★★★★

Direção: Laís Bodanzky

País: Brasil

Ano: 2017