“As larvas estão comendo ele vivo”: capitalismo e destruição no cinema
- Abdiel Anselmo

- 30 de mar.
- 2 min de leitura
De Parasita (2019) a A Única Saída (2026), uma leitura de como a luta de classes está sendo revisitada pelo cinema

Em 2019, Parasita, Bacurau e Joker discutiam como a luta de classes atravessa fronteiras, unindo países, línguas e percepções de mundo distintas sob a marcha retumbante de um capitalismo feroz e sangrento. Parasita explora de maneira sofisticada a linguagem cinematográfica para narrar a separação dos espaços como manifestação das desigualdades sociais e econômicas, das casas de luxo aos esconderijos subterrâneos. Bacurau reflete sobre o horror da exploração da morte a partir de uma geografia subalternizada pelas elites estrangeiras. Já Joker evidencia como o acesso à saúde mental pode se configurar como um privilégio das elites.
Anos depois, entre 2025 e 2026, Sonho de Trem e A Única Saída retomam essa discussão, buscando representar como o trabalhador comum é descartado e deturpado pelo capitalismo contemporâneo. Sonho de Trem centra sua narrativa na trajetória de um homem comum que tenta constituir família a partir de sua breve inserção no projeto de progresso e modernização das nações. Trata-se de um sujeito “sequestrado” do seio familiar por longos períodos, sob a promessa de um devir de crescimento que nunca se concretiza. Troncos antiquíssimos são derrubados em nome do progresso, restando ao protagonista lidar com as transformações do tempo como pode, ouvindo os sussurros de fantasmas em uma floresta que renasce das cinzas.
Em A Única Saída, um homem é demitido de uma fábrica de papel à qual dedicou décadas de sua vida e passa a precisar prover sua família a qualquer custo. Sua solução é eliminar a concorrência. Empurrado por uma ambição assassina, o protagonista é conduzido ao limite do trágico-cômico, dependendo simultaneamente da sorte e do azar para alcançar seus objetivos. O desfecho é amargo, pois nada se estabiliza: a entrada da inteligência artificial reposiciona o personagem em um terreno de permanente instabilidade.
A Única Saída pode ser compreendido como uma continuação temática de Sonho de Trem, ao acompanhar a cadeia do progresso e da exploração da madeira ao longo do tempo das sequoias transformadas em pontes à celulose convertida em papel. A cada etapa, o progresso avança na direção da desumanização dos indivíduos e, por fim, dos próprios processos produtivos.
Em suma, o discurso presente nessas obras aponta para a percepção de uma sociedade engolida por um capitalismo que destrói valores, subjetividades e matéria-prima. Nesse contexto, o produto deixa de ser orgânico ou vivo: apenas o lucro se apresenta como a única saída.



Fomos da antropofagia, como uma ideia de enlarguecer as humanidades e os conhecimentos, para a “sociedade engolida” e trucidada pelo lucro 👎🏻