• Arthur Gadelha

ARTPOP: um produto pop sobre ele mesmo

Autor da era mais polêmica de Lady Gaga, ARTPOP é tão genial quanto frágil na estrutura em que ele mesmo se propõe ser consumido: atmosfera da música pop industrial


Ontem escutei novamente ARTPOP (2013) com mais atenção, quinto álbum da artista norte-americana Lady Gaga. Ao fim do encarte, Gaga agradece toda sua equipe por terem “acreditado e vivido a filosofia de ARTPOP”. Eu já tinha uma noção que o conteúdo do álbum está na discussão sobre a forma, mas só ontem fui perceber a coesão da história que ele conta a partir da ordem da tracklist. Sinto que há 5 blocos bem delineados que discutem pontos dessa forma: SEXO, ARTE POP, MODA, DROGA e FAMA. Palavras que, para ela, traduzem o mundo da indústria da música pop. Como ser arte diante do hipercontrole financeiro? É preciso tomar as rédeas.


1. SEXO


Em Aura, sexo num sentido de libertação. Você quer me ver nua? Você quer ver a garota por debaixo da aura? Sua arte é que está debaixo da aura do mundo pop. Mas o “Produto Gaga” é exatamente a arte coberta pela burca (afinal, ela não faz simplesmente o que quiser nessa indústria). Um acordo entre o que ela quer e do que dá pra mostrar.


Em Venus, a descoberta de uma nova forma de amor: um sexo alien. Há muitas interpretações, mas eu sinto que seja a narração de uma primeira noite de sexo lésbico. “Quando você me toca eu morro só um pouco por dentro, me perguntando: isso poderia ser amor?”. Ao mesmo tempo, uma pergunta à relação da sua arte com a indústria que a vende: essa “transa” entre os dois pode mesmo ser amor? Ou é apenas uma transa de tesão? (Todas as músicas de ARTPOP, na minha visão, tem uma interpretação de conteúdo e outra de forma, mas ambas coexistem)


Em G.U.Y. a inversão. Ela quer controlar essa transa, o casamento da sua arte com a indústria, mensagem geral da união da ARTE com o POP. Quer ser a “garota debaixo de você” e o “c.a.r.a.” em cima ao mesmo tempo. Controlar e ser controlada — é o acordo a ser feito se você quiser ser famosa na música pop.

Em Sexxx Dreams, o óbvio: os sonhos eróticos proibidos. “Ouvi dizer que o seu namorado estará fora. Neste fim de semana quer me encontrar aqui na minha casa?”. Quem ela seduziu aqui? O dinheiro?

2. ARTE POP


Essa é mais estranha porque na polêmica Do What U Want, ela faz uma referência ao modo como a indústria precisa usar seu corpo para fazer dinheiro (insira aqui toda artista superpop). “Você não pode parar minha voz, pois você não é dono da minha vida. Você não pode ter meu coração e não usará minha mente, mas faça o que quiser com meu corpo”.

Na música ARTPOP, o jogo é claro. É possível viver junto. É possível ser ARTE e ser CULTURA POP — conceito que banhou Jeff Koons ao produzir a capa do álbum que, inclusive, “usa” o corpo de Gaga para construir uma estátua na releitura do Nascimento de Venus. “Meu coração pode bater com tijolos e cordas [o som maluco do album] Meu ARTPOP pode significar qualquer coisa. Nós poderíamos ficar juntos… ARTPOP…” (A live dela com Elton John dessa música é muito bonita)

3. MODA


Enquanto Fashion! fala da sobrevivência/poder da imagem no mundo da fama (“Olhe para mim agora, eu me sinto no topo do mundo na minha moda”), em Donatella ela pega literalmente um personagem que exemplifica essa aparência. “Porque ela anda tão mal, mas se sente tão bem. Ouça-a irradiar sua magia”. A moda, as roupas difíceis, feitas mais de conceito do que de prática, fazem parte da história da Gaga quebrando essa “beleza” a partir da estranheza das roupas ao longo da carreira.

4. DROGAS


Em Mary Jane Holland, Gaga fala da maconha, essa personagem tão indissociável à América e aos ricos como a Cocaína. “Quando eu acendo a chama e te coloco em minha boca, a grama aquece o meu interior e minha morena começa a brotar”.


Em Dope, o caminho é sem glória. Parar suportar algumas dores, precisa mais do amor de pessoas do que das drogas. Esse amor pode ser um boy magia (Hi, Taylor), como pode ser o amor dos fãs. A droga poderia lhe arrancar da fama? Pôr tudo a perder?

5. FAMA


A viagem termina, respectivamente, na tristeza e na alegria de viver na fama (paradoxo que, curiosamente, é o guia de Chromatica, seu sexto álbum) Em Gypsy ela é uma cigana que não pode viver um amor à distância porque vive na estrada em turnês e todas as noites se sente sozinha — deixou família e amores para viver esse sonho… Mas o amor dos fãs pode ser uma coisa pra fazê-la suportar.

Applause, é esse suporte. “Eu vivo pela maneira que você me anima e grita por mim. Eu vivo pelos aplausos”. Concluindo o album assim como os aplausos concluem um show, a música resume a “filosofia” que Gaga agradece: “A cultura pop estava na arte, agora a arte está na cultura pop, em mim! Vivo pelos aplausos”.

Esta é a personagem Lady Gaga, uma artista pop que, paradoxalmente, canta sobre ser pop. Esse paradoxo já nasce na sua estreia em “The Fame”, um deboche sobre fama que a faz ser famosa (?).


OBS: As músicas não citadas me parecem sobrevoar esses temas de forma menos orgânica: Jewels N’ Drugs (Drogas, Fama e Arte Pop), MANiCURE e Swine (Arte Pop, no sentido de versarem sobre o domínio masculino da indústria)

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