• Arthur Gadelha

Critica morna: no Festival de Brasília, um eco de longe

ensaio "Que a gente consiga mover as coisas", disse a crítica Lorenna Rocha. Parece uma síntese elétrica do gesto que ganhou força nesse debate do 55º Festival de Brasília

55º Festival de Brasilia 2022 - Debate com a Crítica de Cinema
Luiz Zanin, Amanda Aouad, Lorenna Rocha e Bárbara Bergamaschi

Na tarde deste sábado, o 55° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro promoveu um encontro com a imprensa especializada para que os profissionais da critica presentes pudessem trocar ideias sobre os desafios e rumos da atividade. Em dado momento, Paulo Henrique Silva, ex-presidente da Abraccine, comenta: “A gente tá falando aqui entre nós mas ninguém tá sabendo”. Em seguida ele é alertado de que o debate estava sendo transmitido ao vivo para todo o Brasil e que, sim, bem mais gente, como eu, poderia ser envolvido naquela conversa sobre uma reação da critica em busca de respeito, da afirmação profissional de sua natureza e de seu impacto. Eu assisti, de Fortaleza, pouco mais de um mês depois de um debate semelhante que aconteceu com a critica no 32° Cine Ceará. O ponto de levante era o mesmo: por que a profissão da critica não é interpretada como tal? “Não tem tom de chororô aqui não, tem tom de combate”, comentou Luiz Zanin. Como ponto alto da conversa, Paulo propôs que os críticos presentes pudessem escrever uma carta para apresentar no dia seguinte, noite de premiação.


A discussão é forte para nos fazer perceber que a crítica de cinema está cada vez mais passível de se submeter ao “controle” das estruturas da mídia, da publicidade, da violenta distribuição injusta e do coagido prestígio intelectual. A critica, como Lorenna Rocha pontuou frontalmente em Brasília, está morna. Debate-se os temas dos filmes, mas não os filmes, vira protocolo, notícia, ganha formato, perde consumo, esvazia a conversa. “Como se a linguagem fosse algo neutro. A gente sabe que os temas são modulados pela forma como eles adquirem linguagem cinematográfica”, comentou Zanin.


Esse ponto de partida levou a conversa a compartilhar levantes contra esse “gesto do estabelecido”, como os mapeamentos de críticas mulheres no Coletivo Elviras e de críticos negros na plataforma Indeterminações. O olhar hegemônico, afinal, também amorna o debate. Lorenna lembrou também do papel da formação contra essa maré do consenso - sejam os cursos mais longos ou as oficinas que acontecem em festivais, essas iniciativas sempre partem na contramão do morno, no exercício de olhar de perto e puxar conversas. “Aprender” e praticar crítica é ir atrás dos contrapontos, da observação, do debate.


O ponto curioso é que, mesmo podada pelo guia de consumo e invadida pelo serviço das resenhas superficiais (essa semana vi uma pessoa reclamando que não gostava da Isabela Boscov porque ela era “muito parcial”), a crítica também não é valorizada por essas estruturas. A remuneração é quase sempre uma exceção. No debate de Fortaleza, Flávia Guerra deu exemplo de negativas que deu sobre convites gratuitos para mediar debate de projetos que tiveram larga captação de recursos. Em Brasília, Neusa Barbosa lembrou que o mesmo acontece em convites para escrita em catálogos. “Se nós nos negarmos, entram os aventureiros que não tem compromisso algum com o cinema”, comentou Maria do Rosário Caetano lembrando do desafio de exigir resposta diante da complexidade dos favores, das "trocas". Ela defendeu que essas reivindicações sejam pensadas de forma coletiva, envolvendo instituições como Abraccine e Fórum dos Festivais, também levando em consideração a realidade de cada evento. Amanda Aouad, vice-presidente da atual gestão da Abraccine, reforçou a importância de levar essa questão para as assembleias da entidade.


Essas incertezas geram uma solidão imensa em todos nós mesmo que, teoricamente, estejamos no mesmo barco. Para que fazemos isso? De que forma fazemos isso? “Brasília é o lugar ideal para isso”, comentou Paulo Henrique ao se referir a ideia da carta. Brasília, afinal, foi um dos palcos da fundação da própria Abraccine. É um pedido para dentro (contra a quietude do debate) e para fora (contra a banalização da atividade). Barbara Santos, espectadora que assistia ao debate pela internet assim como eu, comentou que essas propostas “têm que existir”. Não sei se a carta vai acontecer. Daqui de longe, também fico na torcida.


O debate pode ser assistido na íntegra no YouTube do Festival: