Paulo César Saraceni e seu "Desafio" no cinema político brasileiro
- Isabel Vale
- 16 de jul. de 2025
- 6 min de leitura
Após o golpe de 1964, a censura no Brasil, que, até então, trabalhava apenas em classificação indicativa, passa a se tornar um instrumento de controle, repressão e falta de liberdade para os artistas brasileiros

Idealizado pelo cineasta Paulo César Saraceni logo após o Golpe de 1964, o longa-metragem O Desafio nasceu do que, segundo ele, seriam “amor e revolução em campos opostos” e foi daí que surgiu o enredo do filme, que fora lançado em 1965.
Marcelo e Ada, interpretados por Vianinha e Isabella Cerqueira, respectivamente, são um casal fora do comum. Ele é jornalista, de esquerda e inconformado com o golpe militar ocorrido no Brasil, ela por outro lado, é socialite casada com um empresário, sendo sua relação com Marcelo, um caso extraconjugal. O amor e a revolução estão em campos opostos no filme, pois o casal, diferente de muitos enredos, além de ser de classes econômicas diferentes também tem pontos de vista políticos diferentes. O desfecho do filme surge a partir do momento em que do ponto de vista político o casal passa a divergir e o amor vai perdendo para a revolução.
Saraceni criou o argumento de O Desafio, motivado pelos efeitos do golpe e pela angústia com o governo, a produção do filme foi imediata. Foram estipulados 13 dias de filmagem e uma equipe pequena, escolhida a dedo por Saraceni, com parte do elenco sugerido por Glauber Rocha. Sob influência do Cinema Novo, Paulo César, optou pela famosa câmera na mão, que se tornou um dos principais pontos fortes da obra. As críticas políticas foram inseridas no filme de diversas formas, mas uma das mais importantes foi a inclusão do espetáculo Opinião, criado pelo Centro Popular de Cultura da UNE, com a jovem Maria Betânia substituindo Nara Leão e a participação de artistas como Zé Keti, João do Vale, entre outros.
O espetáculo Opinião imprimiu um forte peso à narrativa fílmica, por se tratar de uma obra criada por um movimento de oposição ao governo. Muitas das músicas constituem críticas ao regime; quatro delas são exibidas em O Desafio. Duas com grande destaque: Noticiário de Jornal escrita e interpretada por Zé Keti e Carcará de João do Valle e José Cândido interpretada por Maria Betânia.

Mesmo acompanhado de uma equipe pequena e sem um diretor de arte ou figurinista, por conta de seu orçamento reduzido, O Desafio transmite ao público diversas mensagens através de objetos de cena, como o livro A Invasão da América Latina, de John Gerassi, obra que denuncia os métodos e participação dos Estados Unidos nos golpes sofridos na América Latina, o cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e também críticas à Tv Globo como quando Ada chega em casa e o filho está assistindo o canal em meio a tiros e bangbangs, tudo minuciosamente planejado para que o filme discretamente explicasse a que veio, sem comprometê-lo com a censura.
Embora o casal protagonista não permaneça junto por divergências no modo de enxergar os problemas sociais da época, Ada simboliza a emancipação da mulher. A personagem, desde o princípio, demonstra ter uma personalidade forte e decidida, e, após o convívio com o jovem revolucionário, ela passa a não tolerar mais a elite da qual faz parte. Após o término do relacionamento, embora ela esteja presente em cenas onde está reflexiva e aparentemente triste com o ocorrido, em momento algum é retratada como fraca, coitada, aos prantos, pelo contrário, a personagem toma coragem para enfrentar o marido e contar sobre o seu relacionamento com Marcelo.
Como o marido de Ada estava ocupado quando ela chega à fábrica para conversar, ele a deixa observando o funcionamento do local e os olhares e reações da personagem em relação ao que ocorre dentro da empresa não é o olhar de desconhecimento ou desinteresse pelo que estava ali simbolizando a indústria; mas de angústia com os meios de produção e o cotidiano dos funcionários.
Depois do término do romance, Marcelo se mostra bastante abatido pelo ocorrido, mas confiante na resistência ao regime. Em diálogos com seu chefe, os personagens conversam sobre assuntos como o incêndio do prédio da União Nacional dos Estudantes e até astrologia, enquanto bebem. Os diálogos do filme foram, inclusive, considerados um marco por Glauber Rocha (ROCHA, 1981), que afirmava ser a primeira vez que personagens de filmes brasileiros apareciam discutindo temáticas como história, revolução, psicologia, dentre outros temas presentes.
Na cena final do filme, Marcelo está descendo uma escadaria, quando encosta do lado direto em uma parede, enquanto é exibido um flashback de Ada, simbolizando sua tristeza com a separação. No entanto, ao som da canção “Eu vivo num tempo de guerra” de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, cujo refrão exalta “É um tempo de guerra, é um tempo de sem sol”, Marcelo segue em frente e, ao final, quando chega à rua, sai pelo lado esquerdo.
O final do filme deixa claro a que veio, brincando com os lados das paredes da escadaria em alusão aos dois lados da política e acabando de vez o relacionamento dos personagens, quando Marcelo levanta a cabeça, depois de lembrar-se de Ada, e termina de descer a escadaria, decidido do lado que ia ficar: o da esquerda. A cena simboliza que, embora se amassem os dois não poderiam continuar juntos por questões ideológicas, ficando aí representada a luta de classes.
Após a conclusão, o filme foi enviado à censura em Brasília e meses se passaram sem que Saraceni tivesse quaisquer notícias a respeito da liberação. Durante a espera, um cartaz para O Desafio é criado por Rogério Duarte, mas que foi vetado pela censura por seu caráter ousado. Na imagem, os protagonistas Marcelo e Ada eram mostrados sendo pisados por botas militares. A partir de então, a tensão em relação à liberação do filme aumentou. Saraceni pediu auxílio a amigos jornalistas e escritores que possuíam influência nos meios de comunicação, como colunas em jornais ou revistas para que publicassem notas e artigos que criticassem o atraso da resposta do filme.
Depois de aproximadamente seis meses, já no final de 1965, Saraceni recebe uma ligação de seu amigo Paulo Emílio Sales Gomes, organizador da 1ª Semana do Cinema Brasileiro, que depois viria a se tornar o Festival de Brasília.
Paulo César foi a Brasília com sua então namorada e protagonista do filme, Isabella Cerqueira. A exibição lotou, recebendo o dobro da capacidade do local. Parte do público era de militares, que, segundo Saraceni, deixaram o filme na metade, causando tensão no momento. O diretor relata que o filme foi bem recebido dentre os que estavam na sessão e que gerou grandes debates após a exibição.
O diretor conseguiu uma reunião com um dos generais responsáveis pela censura para conversar sobre a liberação de O Desafio. O encontro foi positivo para o filme, e o General Riograndino Kruel, garantiu que O Desafio seria liberado após sofrer alguns cortes, pois considerava alguns de seus diálogos subversivos e ofensivos. Após a reunião, Paulo César permaneceu em contato com críticos e jornalistas, dentre outras pessoas influentes na sociedade, para que a demora na liberação do filme não se estendesse ainda mais.
Cerca de um mês e meio depois do encontro, o filme é liberado. O Desafio recebeu grande apoio popular de universitários, cineclubistas e, embora tenha sofrido com algumas análises negativas, Saraceni considera que a maioria das críticas era positiva.
No parecer da censura, o censor opta pela liberação com a retirada de algumas falas, pois acredita que mesmo que tenha o caráter revolucionário, o filme jamais chegará ao grande público e também não influenciará uma maioria contra o regime.
Depois de liberado, o filme recebeu o convite para participar do Festival de Cannes. O Itamaraty negou a passagem de avião para Paulo César mas liberou para Isabella, justificando que os atores poderiam sair do país, mas não os diretores. Saraceni acabou recebendo de presente depois passagens para sair clandestinamente do país e ir à exibição do filme na Itália no Festival de Pesaro. Ele chegou a poucos instantes da exibição terminar, mas pôde ver que a obra gerou grande debate, recebendo elogios de cineastas de diversos países, entre eles, um dos seus grandes ídolos: Rossellini.
Glauber Rocha dizia que, embora O Desafio não tivesse se originado de nenhum outro filme nacional ou internacional, foi a partir dele que muitos filmes de relevância nacional foram pensados e executados, entre eles Terra em Transe, do próprio Glauber, Fome de Amor, de Nelson Pereira dos Santos, Dezesperato, de Sérgio Bernardes, e até mesmo O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, entre outros. Embora seja uma obra desconhecida, se comparada a outros sucessos do Cinema Novo, O Desafio teve grande repercussão dentro e fora do Brasil, sendo exibido e elogiado em outros países, gerando grande debate e influenciando diversos cineastas, brasileiros e estrangeiros.
O filme atualmente existe apenas com os cortes nas falas das cenas censuradas, não existindo mais o original.



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