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O Neorrealismo Italiano, o Cinema Novo e a autenticidade em meio a crises

  • Isabel Vale
  • 8 de out. de 2025
  • 3 min de leitura
“Neo-Realismo é uma forma de olhar sem preconceitos a realidade, sem convenções entre ela e eu – encarando-a sem pré-concepções, olhando para ela honestamente – seja lá o que for a realidade, não apenas a realidade social, mas tudo que existe dentro de um homem”.

Roberto Rossellini


O Neorrealismo italiano foi um movimento cinematográfico iniciado na Itália nos anos 40. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Itália estava em uma crise econômica, interferindo a qualidade e o modo de vida de sua população.


Trabalhadores urbanos estavam sofrendo com o desemprego, trabalhadores rurais deslocavam-se para as cidades, a reforma agrária não ocorreu, o fascismo controlava um país com inúmeros problemas econômicos e sociais. Toda uma série de infortúnios acometia a sociedade italiana da época. Nesse panorama infeliz, a possibilidade de revolução emergia como uma promessa esperançosa de renovação daqueles ares. O Fascismo, muito além de puro fenômeno político, também estava contido nele uma ideologia estética profundamente ligada aos seus valores morais e sociais e esta era, aliás, uma característica comum às manifestações de ideologias totalitárias.


Um dos objetivos da geração neorrealista seria a maior aproximação daquilo que acreditava ser a realidade do povo, para contrapor a essa "falsa imagem" da sociedade; os neorrealistas queriam apresentá-la, e não representá-la.


O que essa vanguarda pretende colocar na tela é um registro da vida das pessoas, no mesmo momento histórico da produção de seus filmes. Não era mais um objetivo falar de tempos passados ou até mesmo de tempos futuros. Justamente por conta da crise vivenciada naquele momento é que o Neorrealismo italiano surge como um estilo antagônico ao cinema em vigor, tanto tecnicamente quando esteticamente.


Como característica de um cinema não realizado em estúdio, os diretores neorrealistas escolheram comunidades desfavorecidas, vilas de pescadores, as ruas cheias de gente nos centros das cidades entre outros cenários reais e presentes na vida da população que estavam querendo mostrar. Os diretores acreditam no cinema como forma de expor os problemas, para que sejam resolvidos.


Em seus aspetos técnicos, o cinema Neorrealista italiano é caracterizado pelo uso frequente de atores não profissionais, filmagens fora do estúdio, aproveitamento de restos de filmes e pedaços de rolos, e pouco uso de artifícios de edição como iluminação artificial e construção de cenários, não só pela falta de recursos para a utilização de tais ferramentas como também pela busca da simplicidade e com o intuito rebelde e revolucionário de quebra e distanciamento do cinema que estava em vigor tanto mundialmente como na Itália. As filmagens feitas nas ruas também causaram a produção de filmes parcialmente mudos com adição posterior de som, pois, devido à qualidade das filmagens fora do estúdio, os diálogos de certas cenas precisavam ser refeitos posteriormente.


Os diretores da época acreditavam que a poética do cinema estava na realidade do quotidiano, que os filmes produzidos deveriam apresentar a realidade sem interferências – o que é um paradoxo, já que o cinema sempre transmite uma ideologia, mesmo quando pretende fazer o contrário, pois a montagem, os planos, os ângulos de câmara, por mais neutros que sejam, acabam influenciando no olhar do espectador. Porém, houve uma grande tentativa se aproximar-se da realidade muito maior do que em qualquer outro movimento cinematográfico até então, o que acabou sendo a característica mais forte nesta manifestação artística.

O Porquê da Influência


“O Neorrealismo mostrou que era possível fazer cinema no Brasil e ajudou a demolir o mito de que a língua portuguesa e a pobreza não eram cinematográficas. As condições já existiam, o Neorrealismo veio mostrar como fazer cinema naquela realidade. Era, até então, inimaginável pensar em fazer filmes com o equipamento que se arrumasse, fosse qual fosse, com atores que houvesse, com os recursos que existissem.”

Nelson Pereira dos Santos

Em um Brasil com grande desigualdade social e instabilidade política e econômica na década de 50, o Neorrealismo foi uma influência necessária e muito bem adaptada à realidade do período, que juntamente com a genialidade e originalidade de alguns diretores brasileiros, foi precursora do maior movimento cinematográfico brasileiro de todos os tempos.


Com a mesma simplicidade e busca pela realidade banhada de críticas sociais, o movimento do Cinema Novo é bem representado pela frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, de Paulo César Saraceni. Sem utilizar atores profissionais, estúdios, com enquadramentos próximos, foi um movimento que desafiou governo e ditadura na busca de retratar um Brasil marcado por injustiças sociais e contradições.

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