• Arthur Gadelha

Leon Reis: a saga dos "Cartuchos" que leva o cinema negro do Ceará a Holanda

Entrevista concedida, originalmente, para o autor no Quarto Ato, site de cinema cearense hoje extinto

O cinema cearense vem garantindo o próprio espaço nos circuitos brasileiros há um bom tempo, e a experiência do curta-metragem se encaixa nessa expansão com uma originalidade desconcertante. Mozart Freire, por exemplo, chamou muita atenção com Cinemão e Janaína Overdrive, e seu novo curta Pop Ritual, terá estreia em 2019 em Bruxelas, Bélgica, no Festival Courts Mais Trash. Dentre outros nomes desse cenário surge Leon Reis, estudante (e agora cineasta) que vem impressionando olhares com a obra Cartuchos de Super Nintendo em Anéis de Saturno, produzido na escola Vila das Artes, equipamento da Prefeitura de Fortaleza. Tendo sua estreia no 28º Cine Ceará, o filme venceu o prêmio de Melhor Filme Cearense e, em seguida, foi selecionado para o 11º Janela Internacional de Cinema, em Recife, na Mostra Competitiva Brasileira.

É o primeiro filme de Leon, que agora se prepara para um grande salto na carreira da obra. As próximas exibições do filme para 2019 serão na Mostra Formação do 22ª Mostra de Tiradentes em Minas Gerais, e na mostra especial "Soul in the Eye", do 48º Festival Internacional de Cinema em Roterdã, na Holanda. A obra transversa sobre racismo pela ótica de uma encruzilhada urbana, erguendo pensamentos sobre a imposição da elite, de uma história que não cabe somente a Fortaleza, mesmo que deixe claro a discussão sobre as contradições de nossos bairros, mas, como agora Roterdã concorda, cabe ao Brasil como um todo, cabe ao mundo. Para o Quarto Ato, Leon conta como surgiu o impulso da obra, sua experiência com o suporte do cinema universitário, e como lida com a recepção que o filme vem recebendo.


Como você descreveria o processo de construção do "Cartuchos"? Como surge a ideia?


A ideia do Cartuchos surge de uma imagem que necessariamente já é um pensamento em algum nível de consciência, sempre me identificando e sendo identificado pelos meus familiares e em Fortaleza enquanto negro, o meu processo de construção e sensibilidades afetivas artísticas foi cruzado por uma avalanche de condutas eurocêntricas e racistas e outras propostas que não cabem relação nenhuma do corpo negro em suas obras. Nesse sentido me identificar enquanto Leon Reis é sim me dizer um homem negro e resgatar os processos que me cruzaram ao longa da vida, sendo eles africanos, indígenas ou não. Então a imagem veio como um relâmpago, uma encruzilhada, um jovem homem negro com aparências semelhantes a minha e um cartuchos de super nintendo em sua mão direita, ele assopra essa ferramenta de uma terra do outro lado do Pacífico e espera com isso reconstituir o universo que o machuca ao seu redor, que universo é esse e como ele se articula foi um processo de descavar mais ainda os arquivos que estão pelo meu corpo e perdidos pelas ruas de Fortaleza. A encruzilhada foi onde pude representar os muitos caminhos que podem chegar até nossos corpos e os muitos que podem partir dele, que lógicas organizam o espaço em que muitos mundos se encontram, quais possibilidades? Disso eu sou um filho, e por isso esse filme bastante heterogêneo, surge.

Equipe de "Cartuchos de Super Nintendo em Anéis de Saturno"

Como você vê a participação desses espaços públicos de formação, como o Vila das Artes, para garantirem produções como seu filme? Há um espaço para o cinema universitário?


Espaço para o Cinema Universitário sempre houve desde que as escolas surgiram, agora que tipo de cinema universitário é o que temos que entender e questionar. Sem dúvidas o Cartucho nunca entraria em qualquer outro processo seletivo das escolas de cinema daqui da cidade além da EAV (escola de audiovisual da vila das artes). O Cartuchos foi possível dentro da Vila das Artes por existir ali um processo único, os alunos articularam um desmonte a epistemologia eurocêntrica dentro da escola, com a ajuda de Kennya Mendes, nossa coordenadora. Criamos uma lista junto com a coordenação da escola de possíveis novos professores e recriamos o projeto pedagógico do curso de Audiovisual, o que existe ali naquela escola é único, permitindo assim projetos como o meu serem selecionados (tem de também questionar o processo seletivo de pitching, mas não conseguimos descavar essa raiz com nossa turma.).


Inclusive existe uma cena em Cartuchos que uma aula sobre o Nascimento de Uma Nação do Racistão do Griffith é dada, e o professor reforça que quem atira primeiro na simbologia do cinema é o antagonista, antagonista num filme que é interpretado por um branco com black face. Essa fala foi baseada de uma aula em 2016 de cinema clássico e a questão racial em nenhum momento era algo de interesse para somar sobre a estrutura da imagem do antagonista e perceber outros níveis de construção racial e social a partir do olhar racista branco, foi só uma explicação se alimentando por uma certa mítica do cinema, e isso eu não tolero. É obrigação de toda escola ter seu projeto pedagógico aberto para ser questionado pois a maioria de trabalhos que entram, tem somente um campo tão ínfimo e já estabelecido, os campos artísticos ainda são muito e muito elitistas em Fortaleza. Certas narrativas ainda são apagadas dentro do processo de chancelamento de um corpo docente que tem toda sua teoria de trabalho e pensamento ligada a um modo de vida alienígena para nós, a estrutura de produção é outra, os corpos são outros, os processos de amadurecimento um, a cidade outra, tem escola que nem se preocupa com as condições de chegada de um aluno na própria sala de aula, não se preocupa em viabilizar transporte público de graça, isso já é um recorte gritante no perfil dos seus alunos.


Não consigo contar nas mãos o número de amigos que me recorreu ajuda por linhas de planejamentos e epistemologias que nenhum dos Doutores e Pós Doutores dessas escolas tem conhecimento na hora de serem seus orientadores. Existe uma relação de poder daquele orientador para o aluno em que muitos alunos não conseguem exibir pra eles que o campo de pesquisa e ação de seus trabalhos não é nada ligado ao que seu orientador propõe e o próprio orientador não dispõe de seu tempo para entrar no campo imaginário de seu aluno e mais um projeto acaba sendo rasgado ou até mesmo se tornando um pet de orientação. As escolas possibilitam muitos caminhos que antes não existiam, mas elas têm de entender também que existir somente para sustentar uma singularidade em suas salas de aula é um erro no nível quântico mesmo.


Percebo um tom experimental muito maduro na obra que me lembram a garra na estética de André Novais e Adirley Queirós. Quais são suas referências?


Essa é uma pergunta que eu acho engraçada. Uma vez eu fiz ela para a Paula Hasney sobre seu filme Santa Porque Avalanche, cineasta de Icó que tem um dos melhores filmes do Ceará, também produzido na Vila Das Artes. Me lembro que ela replicou que por mais que a gente tivesse referências era bom se despregar delas e tentar entender que existe além do cinema para se esboçar um filme. Desde o momento que eu comecei a questionar essa conduta cega de muitos, de amar o cinema pelo cinema, e não por sua real manipulação, confronto e contato com a nossa realidade, eu percebi que nesse campo das referências elas podem ser uma referência religiosa, uma dança, um sentimento de uma partida de basquete. Então a minha maior referência foi um número gigantesco de amigos de um dos meus irmãos mais velho: Augusto Caiê, junto com meu irmão eles redistribuíam fitas cassetes, cartuchos de super Nintendo, emprestavam vídeo games, legendavam coisas em VHS na época que DVD era coisa de gente rica (1999 a 2006). Às vezes eu via a troca desses artefatos sem nem mesmo as pessoas se conhecerem, era uma vontade de partilha justamente somente pelo poder daquele arquivo. Afinal, o Cartuchos em algum contexto fala das encruzilhadas que nos trazem artefatos de todos os universos possíveis e como rearticular a nossa realidade a partir de um objeto que foi concebido para outro é uma tarefa de hackeadores. A possibilidade de redistribuir uma quantidade enorme de conteúdos do Japão na minha infância num bairro da periferia do extremo oeste de Fortaleza veio de um trabalho de coletividade entre grupos e isso deve ser ressaltado, uma encruzilhada que se move.


Engraçado falar do Adirley pois no momento que Branco Sai Preto Fica utiliza conteúdos criados na própria Ceilândia como ingredientes de uma bomba que pode derrubar o Planalto Central, existe ali uma artimanha do dispositivo que me lembra Cartuchos. Sendo sincero, eu estava pensando mais em Jordan Peele, minha vida no Vila Velha, Chrono Trigger, e minha raiva a instituições escolares, privadas e públicas, do que qualquer outra coisa, quando o filme estava sendo escrito.

A sessão "Soul in the Eye" no Festival de Roterdã amplia o cinema negro no Brasil. Como você acha que o "Cartuchos" encaixa essa discussão no cenário de Fortaleza, da presença negra nos espaços culturais, no cinema?


O Cartuchos em outro momento fala de trajetos, ele começa com um personagem jovem adulto preto (CECIL), morador do bairro Vila Velha, em plena Aldeota de madrugada com a bicicleta de pneu seco, sem dinheiro, procurando um canto para ajeitar o pneu, seus amigos foram de carro para outro lugar e não se importaram com a assistência do seu trajeto, ele nunca chegará nesse canto. Nossos trajetos dentro do campo institucional e no modelo de produção do cinema como ele é legitimado em sua maioria nessa cidade são de uma perversidade única. Dentro de instituições, o primeiro passo torto é esse de alimentar a ideia de que todos são companheiros de trabalho em um mesmo nível de vida social, territorial, então veja só quando o meu trajeto é diferente de uma carrada de pessoas dessa cidade, mas isso nunca foi uma temática a ser discutida dentro da pedagogia artística. Você pode imaginar o tanto de vezes que eu já fui abandonado numa rua, peguei três ônibus pra ir pra um rolê de festinha pra tentar criar "contato" sem ter dinheiro, então é, eu acho que o trajeto diz muito do território em que você vem, como você percorre e se pudermos colocá-los em contraponto existe um choque pra discutir como as relações de privilégio tem o dever de serem colocadas na balança para se perceber quando e onde os com mais devem pavimentar os buracos da minha vida e muitos outros, por quê o caminho até aqui foi bem esburacado. Imagine quantos não veriam Cartuchos se eu não colocasse como dever exibi-lo em outros cantos fora do centro dessa cidade, ele já foi exibido pelo Bom Jardim, Sabiaguaba, Jangurussu, e isso é só o começo, se meu filme fala de nossos trajetos tortos, o processo de violência que existe de nossas vidas dentro do contexto artístico, as várias relações de poder daqueles que nos chamam de amigos na primeira conversa para nos colocar como iguais, então esse filme tem o dever de ir e vim pra todo canto dessa cidade, no ônibus, na bicicleta, na caminhada. Acho que não consigo falar da presença negra nos espaços culturais, só da falta, pois quando eu apareço nesse estado de divulgação com o meu filme, eu olho pro meu lado e vejo muitos outros que sempre existiram mas sempre foram apagados, é por isso que ele tem de ser exibido não só em ambientes dito culturais, mas principalmente fora, para aqueles que nunca chegam lá e para entendermos a potência que pode circundar nossos projetos até mesmo na precariedade.


Como é a sensação para a equipe fazer duas estreias tão bonitas em 2019, em Tiradentes e Roterdã? Pretende ir para os festivais?


A equipe está uma felicidade só, tá todo mundo pulando, sem acreditar que esse filme feito com 500 conto de doações e todo mundo morrendo de fome pudesse chegar pra fora do nosso país, isso se deve também ao trabalho de curadoria da Janaína Oliveira que olhou pro nosso filme e viu sua importância mesmo num contexto de imagens constituídas dentro de uma precariedade. Tô muito ansioso pra tentar representar o filme no Festival de Tiradentes e Roterdã. Infelizmente, como na minha resposta de antes, esses espaços tem um processo complicado de convite. Tiradentes só vai pagar minha estadia e alimentação nos dias 20 a 22 de janeiro, e não vão pagar a passagem de Fortaleza para lá, Roterdã não arcará com nada para eu chegar lá durante os dias 24 a 28 de janeiro (quando a mostra Soul in the Eye acontece). Como eu disse antes, a falta do meu corpo e de muitos outros nesses espaços é uma doença e acredito na plena importância de poder representar meu filme nesses festivais, discuti-lo e conhecer novas estruturas de trabalho conhecendo outras pessoas. Por isso comecei uma Vakynha para tentar custear minha ida a Tiradentes e Roterdã e tô confiante. Inclusive peço a ajuda de quem puder dentro do site e quem ver essa reportagem que possa ajudar com doações para esse trabalho seja possível ser representado!