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Johnny Massaro: “Nada é dado, muito menos a democracia”

ENTREVISTA | Estreando na direção de longas com “A Cozinha”, Johnny Massaro conta sobre o processo de adaptação da peça teatral com Felipe Haiut e comenta o cenário atual da política audiovisual brasileira

A Cozinha - Johnny Massaro
Johnny Massaro, Julia Stockler e Felipe Haiut em bastidor no filme ‘A Cozinha’ (Foto: Divulgação)

Traçando uma carreira em ascensão como ator, passando por teatro, cinema, séries e novelas – como o folhetim que está atualmente em cartaz em horário nobre –, o carioca Johnny Massaro chega à sua estreia na ficção de longa-metragem de forma modesta com “A Cozinha”, filme que estreou em novembro na Globoplay. Adaptada de um texto teatral, a trama circular acompanha um casal de amigos que tem suas vidas postas de cabeça para baixo após um anunciado confronto velado com o passado.


A estreia, no entanto, é uma experiência de autoria compartilhada – com Felipe Haiut, especialmente, que é autor do texto original, assinando roteiro e produção da obra, além de protagonizá-la. Julia Stockler, Catharina Caiado e Saulo Arcoverde completam a equipe que fervilha à olho nu. Ao Ensaio Crítico, Jhonny e Felipe compartilharam algumas das sensações que lhes fizeram conceber essa história.


“No final das contas, a grande magia foi perceber que a reação do público nos cinemas era tão catártica quanto a do público no teatro”, comenta Massaro sobre a colisão de linguagens. Ele lembra que o formato original da peça é apresentá-la literalmente numa cozinha, sentados à mesa, o que torna a experiência mais irreverente em relação ao palco tradicional. “Eu acho que a peça sempre teve um quê de cinematográfico. Dependendo de onde o público sentava era possível ver enquadramentos e detalhes que mais ninguém via”, confirma Felipe. Ele conta ainda que o filme “foi escrito especialmente para os atores que nele estão”.


Ao comentar sobre a relevância de recursos financeiros públicos para a fomentação do cinema brasileiro, Johnny lembrou que é preciso não baixar a guarda apesar deste novo tempo que vive o setor com a recriação do Ministério da Cultura: “Nada é dado, muito menos a democracia. Então sinto que precisamos continuamente trabalhar no refinamento das políticas públicas de acesso e democratização à cultura”.

Filme: A Cozinha (2023)

Sinopse: Na tentativa de superar a depressão, Miguel convida Rodrigo, amigo de infância que não vê há anos, para jantar em sua casa. No dia do encontro, porém, Letícia, ex de Miguel, aparece sem ser convidada. O clima desagradável piora quando Rodrigo chega acompanhado de Carla, sua noiva. Mas à medida que o álcool entra, a vergonha diminui e a libido aumenta. É quando Letícia brinca sobre a sexualidade de Miguel, trazendo à tona uma antiga memória que redefine drasticamente a noite.

Disponível: Globoplay

Confira a entrevista na íntegra


A relação do filme com a linguagem do teatro é bastante evidente. O recorte temporal da história acontecer num mesmo espaço e constantemente sustentada por um diálogo sequencial constrói essa sensação de palco. Ao mesmo tempo, há coisas muito próprias do cinema, dos enquadramentos que lentamente constroem uma tensão velada até a montagem que às vezes vai no caminho do delírio e do suspense. Queria que vocês falassem sobre esse processo de adaptação entre as duas linguagens.

Johnny: A própria peça, por se desenrolar em uma cozinha de verdade, já sugeria aspectos cinematográficos uma vez que a plateia podia, ela mesma, “enquadrar”, dependendo do lugar onde estivesse sentada. Na ocasião de transpor a peça para o filme, nos perguntamos muito como e o que manter da valiosa raiz teatral do texto. Com o pouco tempo de filmagem que tínhamos, me parecia mais inteligente aproveitar e preservar algo do percurso previamente percorrido no “palco” e, de muitas formas, acredito que isto está ali. No Vale Criativo (espaço onde filmagem em Visconde de Mauá) tínhamos disponível não só a locação e os dormitórios para equipe, mas também um teatro, onde pudemos, de muitas formas, continuar pesquisando a fronteira entre as duas linguagens, até mesmo porque o Gunnar Borges, diretor da peça, fez a preparação do elenco para o filme. Algo muito nítido para mim é que se na peça existia o público, nas filmagens a própria equipe funcionava como este termômetro. Ao mesmo tempo, era claro que precisávamos abandonar muitas coisas ao adaptar para o cinema, pois mesmo sendo linguagens irmãs, são muito distintas entre si. No final das contas, a grande magia foi perceber que a reação do público nos cinemas era tão catártica quanto a do público no teatro.


Felipe: eu acho que a peça sempre teve um que de cinematográfico. Dependendo da onde o público sentava era possível ver enquadramentos e detalhes que mais ninguém via. A peça acontecia dentro da cozinha do Johnny, era um projeto site específica. Então, desde o início do processo eu sempre imaginei que essa peça daria um filme. Eu sinto também que esse roteiro e é bem dramaturgico, eu sentia que ele precisava ter algo de teatral nele. A transposição pro cinema da peça se deu durante a pandemia, eu Adaptei o roteiro no momento em que nós não sabíamos se iríamos sair dessa ou sobreviver. Adaptar esse roteiro para o cinema e produzir esse filme foi a forma que Johnny e eu encontramos para sobreviver naquele momento. Foi a maneira de existirmos criativamente no mundo. Durante o processo da pré produção, Johnny e eu trocávamos muito. Ele me falava as suas impressões do roteiro, criava a sua dramaturgia de direção e tudo aquilo que eu sentisse que era possível de acrescentar para termos como referência na filmagem, eu colocava. A gente sempre quis que esse filme fizesse uma referência de onde ele veio, que é o teatro, e fosse um ponto de encontro entre o teatro e o cinema.


A trama do filme me envolve, especialmente, porque desde o começo sentimos que nenhuma daquelas relações está lúcida, estabelecida, mas dividida pelo que parecem ser paredes de vidro, pairando uma agressividade prestes a explodir. Foi difícil reconstruir esse conflito e fazê-lo parecer real sem a naturalidade do palco?

Johnny: Desde o princípio tinha a imagem e a sensação de que o filme era uma montanha russa, com vários momentos de emoção, velocidade, adrenalina, e que precisaria imprimir ritmos diferentes para cada cena. Mas é claro que não poderia construir este “brinquedo” sozinho e tive a imensa sorte de contar com uma equipe muito sensível, profissional e dedicada na contação daquela história. Aprendi a evitar a palavra “difícil”. E quando preciso usar o termo, troco por “desafiador” (risos). É impossível negar que foi um processo muito desafiador: nosso orçamento provinha de investimentos pessoais, tínhamos apenas seis dias de filmagem, em um momento de pandemia pré-vacina e muitos de nós estávamos desempenhando suas funções pela primeira vez (eu, inclusive, dirigindo longa metragem – antes, havia dirigido três curtas). Ao mesmo tempo, este desafio me ensinou a entender um filme em todas as suas etapas, pois também fui produtor.


Felipe: E eu sinto que muito desse conflito vem do jogo de atores e do que a gente descobriu durante o período em que fizemos a peça. O texto deixa possibilidades para que os atores possam brincar, é a cama para o jogo de cena entre a gente. Eu gosto muito de escrever diálogos, de misturar suspense, humor e drama sempre foi o que me atraiu nos textos de autores que me inspiram como nos de Mauro Rasi, Júlia Spadaccini e Miguel Falabella. Esses elementos estão misturados o tempo todo na nossa vida. E esse filme foi escrito especialmente para os atores que nele estão. Acho que o Johnny teve essa sensibilidade, de captar a essência da peça e pensar em imagens para transpor pro cinema. Construir esse conflito não foi difícil, acho que foi a parte mais divertida.


Diante da sua carreira em novelas, séries e filmes, formatos que têm cada um suas próprias particularidades formais, como você percebe que essa experiência contribuiu para o filme? Seja em relação à direção de atores ou da própria liberdade que um filme como o seu tem de narração e experimentação.

Johnny: Tenho muita clareza que minha trajetória como ator não só definiu como possibilitou que eu pudesse dirigir “A Cozinha”. Geralmente, o percurso até a direção passa por etapas que eu, de certa forma, pulei, justamente pela minha vivência pregressa como ator. De maneira consciente ou não, percebo que levei muito das experiências que tive com outros diretores e diretoras para a minha condução, ao mesmo tempo que também buscava entender a minha própria maneira de dirigir que, acredito, era muito sobre dedicar tempo, estudo, atenção e também abrir ao máximo os sentidos para fluição da intuição.


- Nos créditos iniciais vemos que a produção conta com recursos da Lei Aldir Blanc, que ajudou muitos artistas do cinema e do teatro. Olhando para o cenário atual da cultura brasileira, como você percebe os espaços de produção e debate do cinema e do teatro?

Johnny: Olha, pensando nos anos do (des)governo anterior, sinto imenso alívio com nosso atual momento. Porém o trabalho é árduo e precisamos sempre estar atentos e fortes. Nada é dado, muito menos a democracia. Então sinto que precisamos continuamente trabalhar no refinamento das políticas públicas de acesso e democratização à cultura, pois isso forma um país e uma gente forte, consciente dos seus lugares e identidades, especialmente em um país tão plural, diverso, imenso e rico de culturas como o Brasil.


- Você se inspira em outros cineastas brasileiros e/ou internacionais? Tem vontade de fazer mais trabalhos como diretor?

Johnny: Para “A Cozinha”, especificamente, me encantei muito com o trabalho de Kantemir Balagov, um jovem diretor russo. E também com o sueco Ruben Ostlund. Também gosto bastante dos trabalhos do Xavier Dolan. Aqui no Brasil tenho acompanhado com muito entusiasmo os trabalhos da Carolina Markowicz e do Marcelo Gomes (com quem estou trabalhando agora na série Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente). E sinto que carrego muito comigo as experiências que tive com o Selton Mello e o Luiz Fernando Carvalho. E sim, tenho muita vontade de continuar dirigindo e estou trabalhando para tornar isso cada vez mais frequente. Flerto, inclusive, com o desejo de migrar completamente para direção em algum momento. Mas isso só o futuro vai me responder.

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