• Arthur Gadelha

Da Bahia ao Espírito Santo: a “Transa” de Silva

A vontade de ser brasileiro


1972. Caetano Veloso voltava de seu amargo exílio e lançava “Transa”, álbum dos mais intensos e “objetivos” de sua carreira. 2018. Silva, chamado simplesmente desse jeito, retorna ao campo autoral e lança “Brasileiro”, álbum que vai em contramão direta a toda a sonoridade que o colocou no mundo da música sete anos atrás. Não parece muito claro o que esses eventos podem ter em comum, mas há em torno deles dois Brasis que sangraram apesar de toda revolta e apesar dos curativos. 


Em Londres, Caetano lembra de um Brasil que era capaz de ir muito além do regime militar, da censura e do horror. Um Brasil que ainda é muito lindo por tudo que produziu, pelas pessoas, pelos sons únicos, por uma história pulsante em torno da música, da arte. “Transa” me parece uma colcha de retalhos do que é ser brasileiro, ou baiano, como nunca escondeu seu autor. You Dont Know MeIt’s a Long Way e Triste Bahia, por exemplo, são cartas ácidas de amor a quem distorce a nacionalidade, como a afirmação quase grosseira de Reconvexo. Caetano agradece o Rei do Baião, Baden Powell, Vinícius de Moraes, Gregório de Matos (Triste Bahia), Monsueto e Arnaldo Passos (Mora na Filosofia), resgata memórias muito específicas que o ligam a Bahia, como a praia de Abaeté, ou os pais vivos - assim como ele, muito vivo. 


“Eu ouço a minha voz entre outros” Caetano está no meio, e recita muito o que está lá fora, tão longe, no outro continente. Vai muito longe quando intervém na estrutura de sua canção e solta um trecho de Sodade, Meu Bem, Sodade, de Zé do Norte, que ilustrou uma belíssima cena de O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto. Assim quando desce o caminho de Portobello ao som do reggae, É um longo caminho para Caetano estar ali, vivo, com saudade de um Brasil que na época estava tão distante da paz.


Isso me lembra de maneira carinhosa o que Silva constrói com o pacífico e acolhedor “Brasileiro” (2018), utilizado principalmente para lhe definir um artista dessa terra. Antes, seu sucesso comercial vinha de uma música mais ligada ao finado pop brasileiro, aquela pegada eletrônica com composições breves - o que não impugna sua qualidade. Júpiter, por exemplo, é uma música mais jovem, simples, e bonita no propósito. Quando lançou “Silva canta Marisa” já foi um indicativo do seu retorno às raízes, mas Brasileiro é único, é uma transa de sons e intenções que consegue ter identidade e uma mensagem muito clara. 


2018 está sendo um ano difícil de compreender e de estabelecer convívio. Léo Vieira, compositor cearense, tem uma belíssima canção sobre como a violência invadiu a ideia de ser brasileiro, e me parece desesperador tentar encontrar uma arte que não chore com tudo isso. O álbum de Silva, lançado bem antes do cenário eleitoral, é um abraço, um consolo, uma vontade de ser feliz. As menções estão permeando todas as canções, mesmo que seus temas sejam distintos. 


“Nada será mais como era antes” transversa sobre o desrespeito, a homofobia e a agressividade, apesar de se entender parte de uma terra de bem, de paz, de nos entendermos apenas uma parte daqui tão quanto um pé de açaí. É ter a percepção, inclusive, que a ascensão do pensamento fascista em todo o planeta é apenas um pedaço do tempo e existe um mundo real por debaixo. “Nessa concorrência, Eu prefiro me calar. Sei que essa doença uma hora sara”, diz Milhões de Vozes, composta em parceria com Arnaldo Antunes. Apesar de todo barulho, vai passar, e vai ficar um Brasil que existe no sorriso e na gentileza.


“Eu, você, nós dois, já temos um passado meu amor”, o trecho da canção gravada em 1968, aparece ao fundo de Transa na voz de Gal Costa. Caetano e Silva refletem sobre um passado que, inclusive, ambos têm, aos seus modos, com o Brasil. Nesse caso, como um casal separado que ao reconhecer as razões de um dia estarem juntos possam decidir se reunir novamente.


Enquanto Caetano tem a Bahia, Silva tem o Espírito Santo, estado bem menos visto na mídia. Vitória, sua terra natal, está na linda capa do disco e nos cenários de cada um dos clipes, apresentada nas composições como uma parte do país. Por isso a arte de Silva é tão eficaz e direta, pois sabe que não é um retalho do que o Brasil significa, mas o que é o Brasil em que ele vive, que ele é capaz de perceber. Por isso o sol e o mar são cantos de paz, a perfeição estão nas frutas e nos bichos, são lembranças que toda essa herança indígena de um povo com a beleza de sua terra é algo indestrutível.  

“Sou nascido e moro nessa terra

Mas se eu morrer me deixe morto

Já que sou pedaço desse chão”

Caju (Lucas Silva/Silva)


Quanto a autenticidade na mistura de sons, claro que Caetano vai mais longe ao se aprofundar sobre as referências que criaram nossas referências, como o som jamaicano, o reggae, os ramais de nossos sambas de roda, capoeira, etc. Mas o propósito dessa análise não é, nem de perto, criar um sentido comparativo de valor, pois são obras distintas e sem qualquer relação direta. Isto é apenas uma aproximação, um pensamento sobre dois brasileiros que cantaram sobre a beleza de um Brasil que parecia tão adoecido aos seus tempos. 


Afinal, 1972 e 2018, belíssimos anos para se sentir brasileiro. 

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