• Arthur Gadelha

Partida: Caco Ciocler brincando de realidade

Atualizado: 9 de Out de 2020

Caco Ciocler aposta no hibridismo consciente de documentário e ficção em busca da frágil realidade política brasileira


Esse filme capta de forma até engraçada aquela energia explosiva de frustração, medo e desespero que alcançou qualquer brasileiro minimamente progressista diante da eleição de Bolsonaro em 2018. Nada mais expressivo que um grupo de artistas "fugindo" do Brasil antes da posse de um presidente de ações e pensamentos fascistas. Ao mesmo tempo, curiosamente de forma proposital, essa energia é explicitamente superficial.


"A gente não representa nada, a gente não vai a lugar nenhum", revela Georgette numa terapia improvisada à beira da estrada. Assim como essa consciência, Partida é um filme que também é apenas discurso na essência, uma fragilidade que faz parte de documentar a ficção e de ficcionar o documento ao mesmo tempo. Não deixa de ser criativo e, em diversos pontos, envolvente.


Mas o legal mesmo é enquanto o filme sabe que é mais forma do que conteúdo, quando ele sabe que está investindo uma intensidade medonha diante de quase nada real no discurso. Afinal, o momento-chave que torna esse bate-boca em filme, como afirma o produtor, é apenas a dualidade inconsistente da política brasileira muito bem interpretada.


Mas o filme também tem seus momentos de orgulho de estar apresentando a "realidade", mas poucos deles parecem empolgantes para além da superficialidade da discussão. Felizmente em seus minutos finais há uma "realidade" tão energizada quanto a vontade que deu partida nessa viagem sem destino.

★★★

Direção: Caco Ciocler

País: Brasil

Ano: 2019

*Filme assistido no Cineclube Âncora

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